Private: O Suspeito Nº 1
capítulo 37
RECOSTEI-ME EM MINHA CADEIRA NA sala de reuniões. Sabia que os colegas me olhavam fixamente enquanto eu encarava o rosto de Colleen na tela. Sua expressão era radiante e aquilo não era nem um retrato, apenas a foto de identificação tirada em seu primeiro dia de trabalho na Private.
Lembrei-me de como, uma hora depois de aquela foto ser tirada, Colleen estava sentada do lado de fora da minha sala, separando minha correspondência. Ergueu os olhos ao ver minha sombra cruzar sua mesa e disse:
– Sr. Morgan, alguém por acaso está querendo prejudicá-lo?
– Me ocorre uma dezena de nomes. Por quê?
Ela me mostrou um envelope forrado com papel-bolha com o endereço escrito em lápis de cera vermelho e letras maiúsculas: “Material datado. Abrir ao receber.”
Uma seta apontava para a aba que abria o envelope. Não havia tique-taque de relógio, tampouco endereço do remetente e a caligrafia parecia a de um maluco.
Evacuamos o prédio e fomos todos para a rua, oitenta pessoas em pé sob o sol escaldante da Figueroa Street, enquanto o esquadrão antibombas coletava o envelope usando um robô e o passava por um aparelho de raios X da unidade móvel. Lá dentro havia jornal picado e um bilhete escrito com as mesmas letras vermelhas e vários riscos se irradiando das letras rabiscadas: “RATATÁ-TÁ-TÁ-TÁ.”
As digitais foram identificadas. Pertenciam a de um infrator reincidente, Penn Runyon, um maluco que fora preso por venda ilegal de armas e solto alguns meses antes.
Runyon prestou depoimento e disse ter lido a meu respeito no jornal e descoberto que eu havia localizado e prendido um presidiário foragido amigo seu.
Na verdade, quem havia prendido o amigo de Runyon fora Tommy, não eu.
Um erro comum: Jack Morgan, Private Investigations. Tom Morgan Jr., Private Security.
Runyon perguntou se havia me matado. Sério? Você mandou uma bomba de papel inofensiva, amigo.
Runyon fizera tudo errado.
Colleen, por sua vez, tinha feito tudo certo. Era a melhor assistente que eu já tivera. E não só isso. Eu gostava dela, gostava muito.
Encerrei as reminiscências sobre Colleen e tornei a me concentrar no presente. Falei para meus investigadores:
– Colleen trabalhou por mais de um ano aqui na Private. Nós começamos a namorar. Não era nenhum segredo.
– Ela era uma moça incrível – disse Del Rio.
– Era sim. Estava visitando amigos aqui em Los Angeles e, não se sabe como, foi capturada ou enganada e depois assassinada na minha casa.
Falei sobre a cena terrível que havia encontrado no meu quarto e então passei a palavra para Sci, que parecia ter 15 anos, vestido com uma camisa toda estampada de abacaxis, calça cargo e tênis.
Sci leu um laudo que estabelecia como e por que Colleen havia morrido: homicídio por disparo de arma de fogo no coração. Afirmou haver indícios de que ela tivera relações sexuais algum tempo antes da morte.
– Teremos o perfil de DNA hoje mais tarde – falou.
– Não importa o que encontremos, a polícia não vai acreditar, porque não podemos dizer a ninguém que investigamos a cena do crime. Então vamos ter que usar o que descobrirmos para achar o culpado e depois guiar a polícia até ele.
Em seguida perguntaram sobre o horário da morte de Colleen, onde eu estava naquele momento, se a arma do crime fora encontrada e se o assassino escrevera, telefonara ou deixara algum recado para mim.
– O assassino era um profissional. Foi um homicídio planejado. Só pode ter sido uma armação para me incriminar. Vamos fazer hora extra até encontrar o filho da puta que matou Colleen.
Então a porta da sala de reuniões se abriu e Justine entrou, alta, magra e elegante, usando um terno azul-escuro e uma blusa de seda cor de creme.
– Desculpe – disse ela, sentando-se na cadeira ao meu lado.
– Estamos terminando – falei. – Quer nos informar sobre Danny Whitman?
– Um caso novo, talvez – disse ela ao grupo. – Um ator de cinema jovem com um problema de braguilha criminosa. Vou encontrá-lo hoje mais tarde.
– Obrigado, Justine. Mais alguém?
– Jack, preciso falar com você um instante – disse ela. – Se tiver um tempo.
Encerrei a reunião. Quando a sala se esvaziou, fechei a porta e sentei-me ao lado de Justine.