Private: O Suspeito Nº 1
capítulo 88
JINX ME CONTAVA SOBRE A vida e a morte de Clark Langston com um ar atormentado. Ela ainda tinha medo do finado marido. E talvez também o amasse.
– Estávamos em uma estrada de terra batida que dava a volta no lago. – As pessoas que haviam passado o dia em barcos já embalavam seus equipamentos para ir embora. A estrada se transformou em uma vala cheia de grama e mato, totalmente deserta.
Ela sorriu, mas foi um sorriso nervoso, e prosseguiu:
– Eu continuava fazendo minha voz de GPS. Aquela farsa ridícula de controlar meu marido estava me inspirando, Jack. Nós agora estávamos presos em um jogo maluco e suicida. E ele me instigava dizendo: “Você acha que eu não sei o que está armando?” Não sei como ele sabia, mas eu tivera uma ideia… de que talvez conseguisse fazer Clark bater com o Maserati. Eu queria machucá-lo. Queria que ele morresse e, se eu morresse também, tudo bem. Falei: “Vire na próxima esquerda.” Era uma estrada que conduzia a um parque nacional.
Recostei-me na cadeira e observei o rosto de Jinx. Imaginei a queda de braço vinte anos antes: um homem mais velho e tirânico e sua esposa com fantasias de vingança. Emocionalmente, Jinx ainda vivia naquele instante.
– Ainda havia luz suficiente para enxergar – prosseguiu ela. – Eu disse a ele para virar na entrada seguinte, que era uma rampa de barcos. Ele virou e entramos na rampa a mais de 60 por hora. Perdi a coragem. Gritei. Mas Clark estava adorando me assustar, para eu me arrepender de tê-lo desafiado. Ele riu de mim, Jack. Pisou ainda mais fundo no acelerador.
– Ele percebeu onde estava?
– Nunca vou saber. Talvez ele tenha pensado que conseguiria parar a tempo e avaliado mal a distância. Ou talvez tenha pensado que aquele seu carro de 250 mil dólares podia voar. Só sei que ele não chegou a frear.
Ela estava de cabeça baixa. Falava depressa agora, tentando chegar ao fim da história.
– Tirei o cinto de segurança, abri a porta e pulei antes de o carro cair na água. Depois disso, passei um tempo anestesiada. Não ouvia nada, não via nada, só pensava em chegar à margem, que não ficava muito longe. Não olhei para trás. Andei durante algum tempo, peguei uma carona e disse à polícia que meu marido tinha perdido o controle do carro.
A história da vida de Jinx Poole enfim estava terminando.
– Quando eles tiraram o carro do lago, Clark ainda estava de cinto. A taxa de álcool no sangue era três vezes maior que o limite legal e sua morte foi considerada um acidente. Ninguém fez pergunta alguma. Fui ao enterro. Chorei. Depois me mudei para Los Angeles. Retomei meu nome de solteira e me formei na universidade.
– E comprou um hotel.
– É – concordou Jinx. – Logo depois de me formar. Comprei um hotel com os 2 milhões de dólares estipulados no meu acordo pré-nupcial. E peguei mais algum dinheiro emprestado. Reformei o lugar e o reabri com o nome de Beverly Hills Sun, depois comprei os dois outros. Foi uma loucura. Eu precisava trabalhar para provar a mim mesma que minha vida valia alguma coisa. Que eu não precisava do amor de Clark… nem do seu desdém. – Ela olhou-me nos olhos. – Jack, o que eu fiz lá no lago Whiskeytown… eu queria que ele morresse e fiz meu desejo virar realidade.
Seus olhos haviam começado a marejar, mas ela não se permitiu chorar.
– Minha sensação é que os assassinatos nos meus hotéis são uma vingança pela morte de Clark, pelo dinheiro que herdei dele.
– Jinx, você disse que o seu marido era um bêbado violento e estuprador. Você por acaso o obrigou a seguir pela tal rampa?
Eu ia prosseguir nessa linha de raciocínio, mas ela me interrompeu. Levou a mão ao meu peito. Estava se esforçando para dizer alguma coisa.
– Eu tenho medo… de confiar em mim mesma outra vez… para estar com outro homem.
Ela estava inclinada na minha direção.
– Estou com vontade de abraçar você – falei.
Ela ergueu para mim os olhos cheios d’água.
– Eu preciso mesmo de um abraço.
Abracei-a e ela finalmente chorou.
Eu não esperava me sentir tão próximo dela. Não era um sentimento que eu desejasse, mas não havia como negá-lo. Eu gostava muito de Jinx.