Private: O Suspeito Nº 1
capítulo 21
DESCI PELA ESCADA ATÉ A sala de Justine, que ficava logo embaixo da minha. Três de nossos colaboradores estavam sentados em volta de sua mesa semicircular: Kate Hanley, Lauri Green e Bud Rankin, nosso camaleão virtual e detetive sessentão.
Justine estava dividindo entre eles as tarefas de coletar informações sobre todas as cinco pessoas assassinadas nos hotéis.
Quando ela ergueu os olhos, os longos cabelos escuros cortados na altura dos ombros emolduraram seu rosto bonito.
Ela agradeceu à equipe, e os três saíram da sala.
Sentei-me e lhe falei sobre a proposta irrecusável de Noccia.
– Não vamos aceitar o serviço, vamos?
– Eu não quero aceitar.
– Meu voto é não, de jeito nenhum, nem pensar.
– Anotado.
– Agora me conte as últimas novidades em relação a Colleen.
Sobre mim e Justine: há alguns anos, compramos, como presente de casamento conjunto, a casa na praia onde hoje eu moro. Transamos bastante e nos divertimos bastante naquela casa. A verdade é que combinamos sob todos os aspectos – menos um.
Eu não gosto de me abrir. E Justine é psiquiatra. Eu sou discreto, ou o que ela chama de “excessivamente defensivo”, e isso a irrita. Então ela se fecha. E continua irritada.
Nós namoramos. Depois rompemos, depois tentamos de novo, com o mesmo resultado. Após a segunda ruptura, há mais de um ano, comecei a sair com Colleen – e Justine começou a sair com um cara que não era bom o bastante para ela.
E, há alguns meses, ambos ficamos solteiros outra vez e começamos a sair de forma descompromissada. Eu continuava sem conseguir me abrir. Ela continuava sem conseguir aturar isso. Pouca coisa havia mudado, portanto; tanto no bom quanto no mau sentido.
Sentado ali, olhando para ela, eu não conseguia entender por que precisava falar, já que Justine era praticamente capaz de ler meus pensamentos.
Nesse exato momento, ela estava retirando as camadas da minha armadura.
– Há uma testemunha – falei. – Uma vizinha diz que me viu na praia mais ou menos na hora em que Colleen foi morta.
– Não estou entendendo.
– Não era eu.
Recostei-me na cadeira sem desgrudar os olhos dos de Justine.
– Meu Deus. Era Tommy – disse ela.
Nós dois estávamos pensando em meu gêmeo mau. Ele se atreveria a tentar me incriminar pelo assassinato de Colleen? Será que me odiava tanto assim?
– O que você acha que aconteceu? – perguntou Justine.
– Acho que alguém a obrigou a entrar lá em casa, talvez sob a mira de uma arma. Ela estava com a chave do portão eletrônico e a pessoa que a matou pressionou o dedo dela na leitora.
– Colleen ainda tinha acesso?
– Não só ela. Você também tem.
– Tenho certeza de que esse é um grupo bem grande – disse ela, girando a cadeira para me dar as costas.
– Não estou escondendo nada de você – falei, mas não era totalmente verdade.
Ela tornou a se virar para mim.
– Jack, você não está me dizendo tudo.
Ela estava certa. Mas a parte que eu estava deixando de fora não tinha nada a ver com o assassinato de Colleen.
– Colleen e eu almoçamos juntos. Eu estava com a cabeça cheia. Tinha um avião para pegar. Ela estava bem-disposta. Ela me pareceu bem, mas não falamos sobre nada importante. Alguém teve muito trabalho para me incriminar.
– Está bem.
– Vou passar uns dias no Sun. Até a polícia me devolver a casa. Quer jantar comigo no hotel?
– Hoje não – respondeu ela. – Tenho compromisso.
Era mentira.
– O que você vai fazer em relação a Tommy?
– O que você faria?
– Voltaria no tempo e enrolaria o cordão umbilical em volta do pescoço dele. Daria um nó de forca e apertaria bem.
– Queria ter tido essa ideia.
Nós dois rimos, um riso alto e demorado.
Rir fez eu me sentir muito bem.