Private: O Suspeito Nº 1
capítulo 30
DEL RIO ESTACIONOU NA SOUTH Anderson Street, em frente ao armazém da Red Cat Pottery. Era um prédio de tijolos vermelhos que havia sido caiado algumas vezes. A cal estava descascando e revelava parcialmente os nomes dos negócios anteriores que funcionaram ali.
De onde estavam na South Anderson, podiam ver com clareza a plataforma de carga dobrando a esquina, na Artemus. Havia um semirreboque estacionado junto à plataforma e um sujeito operava uma empilhadeira para embarcar paletes. Dois homens negros que fumavam na calçada jogaram as guimbas na sarjeta e entraram na cabine do caminhão.
Às cinco da tarde, vans e pequenos caminhões-baú entregavam suas últimas cargas naquela área de indústrias leves. Os portões se fechavam e os funcionários encerravam o expediente.
Após vinte minutos de espera, Del Rio ouviu atrás de si uma moto subir a rua e o motor ser desligado. Pelo retrovisor, viu um cara descer da moto e desaparecer no ponto cego.
Então ouviu uma das portas traseiras do Mercedes se abrir.
Virou-se bruscamente e deparou com um homem com a cabeça coberta por um capacete preto e prateado. Tinha uns 30 anos, olhos azuis, quase 1,80 metro de altura, 70 quilos e malhado. Os músculos se retesavam sob a camiseta.
Só podia ser o bailarino. Ele tirou o capacete. Tinha cabelos louros. Estendeu a mão por cima do banco e disse:
– Christian Scott. Scotty. E aí?
Del Rio apertou sua mão.
– Rick Del Rio. E este aqui é Emilio Cruz. Meu braço direito.
– É, direito e de vez em quando o esquerdo também – disse Cruz. – Prazer, Scotty.
– Valeu. O prazer é todo meu. É esse o lugar? – perguntou ele, olhando para o armazém da Red Cat.
– Foi o que nos disseram.
– E vocês já verificaram?
– Não, estamos vendo a tinta descascar. Devem fechar daqui a meia hora.
– Vocês achariam ruim se eu fizesse um pequeno reconhecimento agora?
– Não – respondeu Del Rio.
Scotty desceu do carro. Atravessou a rua com um passo levemente cadenciado, foi até a plataforma de carga na Artemus e gritou alguma coisa para o operador da empilhadeira.
O operador apontou para uma porta acima de uma escada de metal e Scotty acenou para ele, tirou o celular do bolso, subiu depressa os degraus e abriu a porta com um empurrão.
– Não sei se ele é gay – comentou Del Rio. – Mas anda meio saltitante.
– Aposto 100 pratas que esse Scotty era policial.
– Como é que você sabe?
– Conheço mais de mil deles. Ele tem pinta.
– Nesse caso, prefiro guardar meu dinheiro e perguntar a ele – disse Del Rio.
Mais quinze minutos se passaram. Del Rio estava aflito pensando que o cara já ficara lá dentro muito tempo, perguntando-se o que Jack sabia sobre ele e como Scotty se encaixaria na equipe, quando Scotty surgiu dobrando a esquina com um papel enrolado na mão.
Olhou para ambos os lados antes de atravessar e tornou a entrar no carro.
– Fui perguntar sobre oportunidades de emprego – explicou ele, com um sorriso. – Este é o meu formulário de candidatura. Fiz um pequeno tour lá dentro.
Del Rio estava rindo por dentro, mas não demonstrou nada. O garoto era esperto.
– E o que você viu?
– Uma segurança bem decente – respondeu Scotty. – Câmeras em cima das portas, fios nas janelas. E a van deve ser a que estamos procurando. É branca e está toda detonada em uma das laterais. Está parada nos fundos do armazém, no canto nordeste. Não quis dar muita bandeira, mas passei em frente a ela.
– Nossa, cara – comentou Cruz. – Você fez bastante coisa em quinze minutos.
– Vamos tirar esta banheira de 50 mil dólares deste quarteirão – disse Scotty. – Tirei umas fotos. – Ele mostrou o celular. – Quem sabe a gente consegue pensar em alguma estratégia.