Private: O Suspeito Nº 1

James Patterson e Maxine Paetro · Capítulo 90 de 135

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Private: O Suspeito Nº 1

capítulo 87

 

 

NADA EM JINX POOLE ME fazia pensar que ela fosse uma assassina. Era uma mulher inteligente, cheia de classe, uma empresária de respeito, e sua confissão me soava literal e factualmente inacreditável.

Ainda assim, eu acreditava nela.

Mas fiquei chocado e não disfarcei.

– Jinx, você não pode me dizer que cometeu um crime. Não sou advogado nem padre. Posso ser intimado a depor e forçado a prestar testemunho.

– Não entendo bem por que quis contar a você – disse-me Jinx –, mas senti que devia. Quero que saiba sobre a morte do meu marido por mim.

Eu não estava gostando daquela situação. Mal conhecia Jinx Poole. Por que ela se confessava para mim? Pela primeira vez a pergunta surgiu na minha mente: ela teria algo a ver com os assassinatos nos hotéis?

– Meu marido se chamava Clark Langston – disse ela. – Já ouviu falar nele?

– Era dono de alguns canais de TV nos anos 1990?

– Isso, ele mesmo.

Apesar da minha ressalva, Jinx começou a me contar sua história. Descreveu o encontro com Clark Langston vinte anos antes, no verão entre o primeiro e o segundo ano em Berkeley. Ela trabalhava como garçonete em um lugar chamado Lodge, em Pebble Beach.

– Clark tinha um barco, um avião, casas de veraneio em Napa, Austin e Chamonix, nos Alpes. Era charmoso, um pouco parecido com George Clooney, talvez. Rico, bonito, engraçado. Vivia cercado de amigos. Era um cara magnético, entende? Eu era uma menina. E me apaixonei por ele, Jack. Me apaixonei perdidamente.

O semblante de Jinx se iluminou enquanto ela descrevia o que pensara ser apenas um incrível romance de verão. Então Langston lhe disse que seu divórcio tinha saído. Pediu-a em casamento, deu-lhe um caríssimo anel de brilhantes e uma vida caríssima para combinar com o anel.

– Eu me casei em setembro daquele ano – continuou Jinx. – Meus pais me disseram para esperar, mas eu tinha 19 anos. Achava que sabia de tudo. Na verdade, não sabia nada. Larguei a faculdade e fui ser a Sra. Clark Langston, com tudo a que isso dava direito.

Jinx parou de falar. Engoliu em seco e tentou recomeçar algumas vezes, sem sucesso. Estava com dificuldade para prosseguir. Depois de alguns instantes, falou:

– Alguns meses após o casamento, ele começou a me humilhar em público, a cantar outras mulheres, a me mandar buscar coisas para ele. Na verdade, era pior quando estávamos sozinhos. Ele bebia todos os dias. Até perder os sentidos. Eu nunca tinha convivido com ninguém que bebesse, Jack, e Clark era um bêbado violento. Prendia meus braços nas costas, me jogava na parede e me estuprava. Em pouco tempo estupro era o único tipo de sexo que tínhamos. Era assim que ele gostava.

Jinx fez uma pausa antes de continuar sua história:

– Uma vez, ele pôs as mãos em volta do meu pescoço, me obrigou a me curvar por cima da pia da cozinha e ficou gritando na minha cara como eu era inútil. Havia uma faca no escorredor e de repente a faca estava na minha mão, apontada para as costas dele… Eu nem percebi que havia pegado a faca. Foi a primeira vez que realmente pensei em assassinato.

– Você contou a alguém sobre ele? Sobre o que ele estava fazendo?

– Não. Na roda que ele frequentava esse tipo de coisa não se faz e eu não tinha mais a minha turma. De toda forma, ninguém teria acreditado em mim. E a parte mais louca é que às vezes eu via o homem que eu amara… e eu ainda o amava. Sei que soa absurdo.

– Eu sinto muito pelo que estou ouvindo, Jinx. É uma história muito triste.

O garçom trouxe nosso jantar e perguntou se precisávamos de mais alguma coisa. Respondi que estava tudo ótimo, mas na verdade eu havia perdido o apetite.

– Quando tínhamos uns dois anos de casados, fomos a um casamento em um lugar meio fora do mapa. Na verdade, o Willow Creek Golf and Country Club era completamente fora do mapa. Clark estava no seu ambiente. Propôs um brinde e deu um carro de presente ao novo casal. – Jinx continuava a narrar seu passado. – Quando a noiva dançou com Clark, percebi constrangimento e medo em seu rosto. Eu já havia experimentado aquilo. Caramba, estou com essa expressão agora. Percebi que a noiva também tinha sido abusada pelo meu marido, mas ela tivera mais sorte. Conseguira escapar.

Eu apenas ouvia Jinx falar.

– Estávamos voltando de carro para casa quando Clark se perdeu. Tínhamos um GPS, um dos primeiros a aparecer no mercado, mas eu não sabia operar o aparelho e Clark estava superalterado, fazendo curvas fechadas em alta velocidade, dirigindo pelo acostamento. Era o fim do dia e estávamos em uma região rural afastada. Clark falou: “Pegue o mapa, fofinha. Será que você não consegue fazer nada direito?” Busquei o mapa no porta-luvas e comecei a dar as instruções para voltarmos à rodovia, mas isso o fez ter uma grande ideia. Ele me mandou dar as instruções usando a voz eletrônica do GPS. Fazer uma imitação.

Incentivei Jinx a continuar.

– Surgiu uma placa para o lago de Whiskeytown. “Whiskeytown. Parece o meu tipo de lugar”, comentou Clark. Comecei a falar feito o GPS. “Dobrar à direita. Daqui. A um. Quilômetro. Dobrar à. Direita. Daqui. A meio. Quilômetro.”

Jinx se virou para mim. Parecia pequena, jovem e vulnerável.

– Nunca fui tão longe ao contar essa história para ninguém. Desculpe-me, Jack. Acho que cometi um erro.

Na minha opinião, ela de fato havia cometido um erro, mas agora eu estava com ela naquela estrada sinuosa e não conseguia enxergar o que havia depois da curva.

Jinx dera uma facada no marido?

Ou será que ela o havia estrangulado com um fio?

– Está tudo bem – falei. – Você está segura comigo.

Foi então que percebi que meu ponto de vista havia mudado.

Eu queria escutar a história de Jinx.

E queria que ela ficasse bem.