Private: O Suspeito Nº 1
capítulo 48
DOIS JOVENS EXECUTIVOS USANDO CAMISAS de cores berrantes se sentaram nos lugares vazios na outra ponta do bar. Pediram vodca com suco de laranja e começaram a conversar sobre o mercado de ações e sobre o limite cada vez menor do reembolso de despesas, que não cobria um fim de semana no Beverly Hills Sun.
Tentei abafar suas vozes concentrando-me na música e no uísque que reluzia no meu copo. Pensei no relatório de Sci sobre o telefonema de dois segundos feito do telefone fixo da minha casa para o celular de Tommy.
Era uma má notícia para mim, pois parecia indicar que eu estava em casa quando o crime foi cometido.
Só que eu não tinha dado esse telefonema.
Não tinha ligado para Tommy, portanto… teria ele ligado para seu celular do telefone da minha casa para que parecesse que eu estava lá?
Ou ele teria encomendado o assassinato?
Teria o assassino de Colleen ligado para Tommy da minha casa para lhe dizer que ela estava morta? Missão cumprida. Será que Tommy estava bem em frente à minha casa, na praia, e fora visto por Bobbie Newton, que o confundiu comigo?
Apesar de estar sentado no bar, minha mente estava no carro, a caminho da casa de Tommy. Queria confrontar meu irmão, arrancar dele a verdade. E depois queria espancá-lo até ele não se parecer mais comigo. Para que, culpado ou não, nunca mais pudesse se passar por mim.
Mas Justine tinha razão.
Eu precisava de provas. Sem elas, o sêmen no corpo de Colleen bastaria para convencer o júri de que o assassino era eu.
Esvaziei meu copo, deixei algum dinheiro em cima do bar e desci de escada até o quinto andar.
Virei-me em direção ao meu quarto e vi novamente a mulher que estava sentada no bar meia hora antes. Estava agora do outro lado do hall dos elevadores, a pouco mais de 5 metros de distância. De costas para mim, remexia na bolsa como quem procura as chaves.
Tenho a visão apurada e quando era piloto fui treinado para detectar anomalias no ar: uma nuvem de poeira, sombras em movimento, o cintilar de uma peça de aço 3 mil metros abaixo no escuro.
Notei a mulher, mas ignorei o fato de que havia algo errado em sua atitude, sua postura e sua aparência – alguma coisa.
Afastei-me dela. Enfiei na fenda o cartão que me servia de chave, abri a porta do meu quarto – e senti um golpe atordoante me acertar na cabeça.
Caí no chão.
Quando dei por mim, a dor que se irradiava da parte de trás da minha cabeça me ofuscava a visão. Reconheci os raios de sol estampados no tapete sob meu queixo. Eu estava caído em um dos quartos do Beverly Hills Sun.
Fechei os olhos e acordei com o choque de água gelada no rosto. A mulher que eu tinha visto no bar e depois no hall estava curvada sobre mim, com as mãos nos joelhos, gritando palavrões. Não consegui entender o sotaque irlandês carregado, mas reconheci os olhos.
Eram os mesmos de Colleen.
– Colleen – falei, e ela recomeçou a xingar.
Em meio à dor, à medida que minha visão clareava, percebi que, embora se parecesse com Colleen, ela era mais velha.
– Siobhan?
Os xingamentos se intensificaram.
Levantei-me até ficar sentado e gritei bem na cara dela:
– Não estou entendendo nada! Cale a boca, cale a boca, cale a boca!
– Não vou calar a boca coisa nenhuma, Jack! – gritou a irmã de Colleen. – Só quando você me disser por que a matou!