Private: O Suspeito Nº 1
capítulo 106
DEL RIO OLHOU PARA O King Eddy Saloon. O bar ficava em Skid Row, em um antigo hotel homônimo que costumava vender bebida clandestina na esquina da East Fifth com a Los Angeles Street. Apesar de ser um ponto ruim da cidade, o King Eddy atraía todo tipo de pessoa, de bêbados sem-teto a jovens sonhadores que moravam nos condomínios em volta.
O prédio era cinza com detalhes em preto, grades nas três janelas da frente e um portão de segurança preso à porta, evidência do que poderia acontecer e muitas vezes de fato acontecia naquele bairro.
Del Rio passou pela porta com Cruz em seu encalço. Pareciam Samuel L. Jackson e John Travolta entrando naquele restaurantezinho em Pulp Fiction.
A jukebox tocava “Cold Cold Ground”, do Tom Waits, e algumas pessoas cantavam junto. O balcão circular estava lotado de gente excêntrica. Uma prancha de madeira barata sustentava os televisores, todos sintonizados em uma partida de basquete. O Lakers acabava de perder a partida por um ponto.
Os clientes gemeram consternados.
Junto à parede em frente ao balcão havia uma fileira de mesas sob neons de marcas de cerveja. Diante de uma delas, um casal gay se desentendia. Pelo volume agudo de seus gritos, Del Rio avaliou que era questão de minutos para a briga se tornar física.
Com sorte, ele e Cruz já estariam fora dali quando o casal caísse na porrada.
Del Rio vira uma foto do cara que estavam procurando. A imagem tinha uns dois anos e ele estava segurando um número em frente ao peito, mas Del Rio tinha quase certeza de que conseguiria reconhecê-lo ali no seu bar preferido.
Examinou nucas e perfis e então viu o homem negro de barba curta sentado diante do balcão. Estava comendo uma rosquinha que os fregueses recebiam de graça e conversando com o velho pinguço sentado ao seu lado.
Del Rio chamou a atenção de Cruz e meneou o queixo em direção ao homem barbado. Cruz estreitou os olhos, assentiu, e Del Rio sacou sua 9 milímetros.
Andou até o cara com a cerveja e a rosquinha, encostou a pistola em suas costas e o sentiu se retesar. O cara olhou por um segundo para o espelho acima do balcão e em seguida para os dois homens que não estavam de brincadeira e então levantou as mãos.
– Sr. Keyes, queira me acompanhar – disse Del Rio.
– Eu não quero confusão – disse o homem.
– Então não faça nenhuma burrice.
Aquele era Tyson Keyes, chofer de limusine barra-pesada e primeiro marido de Karen Ricci. De acordo com o segundo marido dela, Paul Ricci, Keyes dissera a Carmelita Gomez que seu cliente fora assassinado por outro motorista. Talvez ele tivesse feito mais do que isso. Talvez Tyson Keyes tenha matado cinco executivos que contrataram o serviço de garotas de programa em seus quartos de hotel.
Keyes se virou e desceu do banco muito cuidadosamente.
– Eu não sou o cara que vocês estão procurando.
– Terminou sua cerveja? – perguntou o pinguço ao lado de Keyes.
– Sim, ele terminou – respondeu Del Rio. – Vamos indo.
Uma ou duas pessoas olharam para eles e desviaram os olhos bem depressa. A quem quer que perguntasse, diriam que não tinham visto nada.
Ainda com as mãos para cima, o ex-chofer de limusine Tyson Keyes percorreu lentamente a multidão, escoltado por um ex-fuzileiro da Marinha americana e pelo campeão californiano dos médios ligeiros de 2005.
Na jukebox, Tom Waits cantava sua canção mais conhecida.