Private: O Suspeito Nº 1
capítulo 127
JUSTINE FOI DAR UMA CORRIDA e levou Rocky consigo. Precisava do exercício mais do que o cão. Queria expulsar toda a tensão de seu corpo e de sua mente.
Meia hora depois, ela e o cachorro estavam de volta à Wetherly Drive, subindo o caminho para a sua maravilhosa casa antiga. O imóvel fora construído no fim dos anos 1930 para servir de garagem para carruagens e tinha detalhes arquitetônicos incríveis.
Mais do que isso, a casa irradiava uma sensação de permanência, diferente da residência moderna que ela havia comprado uns dois anos antes com Jack.
Ali não havia oceano para embalar seu sono, mas havia outros sons de que ela gostava muito: crianças andando de bicicleta nas calçadas, regadores automáticos borrifando água sobre gramados bem-cuidados, risos vindos das TVs das salas de estar. Tudo isso criava uma atmosfera que lhe parecia aconchegante e segura.
Na cozinha, deu comida a Nefertiti e Rocky, depois foi fechar as portas dos armários que havia aberto quando Jack telefonara e a convencera a tomar um vinho e conversar.
Por dentro, os dez pares de portas em sua cozinha eram repletos de inscrições. Canetas diferentes tinham sido usadas e mãos diferentes haviam redigido as pequenas anotações que narravam a crônica familiar dos Frank, família que ocupara aquela casa por três gerações antes de ela comprá-la.
A porta para a qual ela agora olhava tinha anotações dos anos 1940: um bebê havia nascido, uma menina, Eleanor Louise Frank. Seu nome estava rodeado de estrelinhas. Um ano mais tarde, um Packard novo estava estacionado na garagem. John e Julie noivaram. Saul contraiu paralisia infantil aos 10 anos. Uma cadela deu à luz dentro de um armário. Houve um casamento no quintal dos fundos. E um primo, Roy Lloyd Frank, partiu para a guerra.
Justine fechou a porta do armário.
Tinha uma vida boa. Quanto a isso não restava dúvida. Tinha casa própria e um bom emprego. Sua vida era como ela queria.
Nesse dia mesmo, ela havia conseguido um caso novo: uma modelo de 24 anos herdara uma fortuna do agora falecido namorado, um octogenário podre de rico. E a família do finado queria que a Private investigasse a moça.
Era um serviço fácil, um caso que não exigiria horas extras. Não haveria tiroteios. Nem mafiosos. Ninguém seria jogado de nenhum penhasco. Ela iria aproveitar esse caso e, até ter tempo para descansar, o trabalho iria preencher seus dias de forma agradável e satisfatória.
Quando a campainha tocou, Justine moveu a cabeça com irritação em direção à porta da frente. Rocky correu até a sala, trepou na porta com as patas dianteiras e começou a ganir.
Ele sabia quem estava tocando a campainha e ela também.
Já passava das dez. Era um dia de semana. O homem que estava diante da sua porta era incapaz de se abrir e incapaz de sossegar. Ele era um bom chefe. Sob todos os outros aspectos, porém, era uma perda de tempo.
Que droga.
Seu telefone tocou.
– O que foi, Jack? – disse ela ao atender.
– Deixe-me entrar, Justine. Por favor.
Ela desligou o telefone, foi até a sala e gritou através da porta:
– Jack, vá para casa! Não quero ver você!
Seu telefone tornou a tocar.
Ela pressionou a tecla de atender, levou o telefone à orelha, deixou-se deslizar pela parede e sentou-se no chão. Então ouviu ele lhe dizer o que ela já sabia.
– Justine, duas semanas atrás nós estávamos no caminho certo. Eu cometi um erro grave, um retrocesso do qual muito me arrependo. Mas nós estávamos reencontrando o caminho para ficar juntos depois de muito tempo separados. Estávamos reconstruindo com o que aprendemos, com tudo o que sabemos um sobre o outro. Não há nada que não possamos resolver. Justine, você não pode virar as costas para o amor, não para o nosso amor. Por favor, querida. Sou só eu. Me deixe entrar.
– Ai, Jack – disse ela ao telefone.
Ele a amava. Jack ainda a amava.
E droga, droga, droga. Ela ainda o amava também.