Private: O Suspeito Nº 1
capítulo 102
A VAN ERA UM DOS MODELOS mais recentes da Ford, branca, com legumes e verduras pintados na lataria, duas portas na frente, mais uma de correr de cada lado, e portas de carga na traseira, com vidros escurecidos em todas as janelas.
Estava parada a 15 metros das portas metálicas, voltada para o fundo do armazém. Quem havia estacionado aquela van queria deixá-la escondida. O lado do motorista e a traseira estavam encostados nas paredes. Os outros dois estavam imprensados contra prateleiras metálicas de 2 metros de altura ocupadas por duas fileiras de vasos cada.
Del Rio se espremeu até a porta do motorista e tentou acionar a maçaneta, mas a porta estava trancada. Como todas as outras.
Puta que pariu.
Trouxera um pé de cabra curto. Pegou-o, quebrou a janela do carona, pôs a mão dentro do carro e puxou a maçaneta. Limpou os cacos de vidro do banco com a mão protegida por uma luva, jogou a bolsa no chão do lado do carona e deslizou até o banco do motorista.
Depois de acender a luz do teto, olhou para a ignição. Teria sido maravilhoso encontrar uma chave ali, mas não: a única coisa que havia na ignição eram respingos de sangue. Havia sangue no volante também, bem como alguns pedacinhos de osso e miolos.
Os restos do motorista de Noccia.
Del Rio procurou a chave debaixo dos tapetes e dos para-sóis. Nada. Chamou Scotty e lhe pediu que verificasse o espaço em cima dos pneus, só para garantir, mas também não havia nada lá, então destravou os trincos para abrir todas as portas.
Del Rio saiu da van e se espremeu rente às prateleiras de vasos, esbarrando em um deles com o ombro. A prateleira balançou, como se não tivesse certeza se iria cair ou não, e um desnecessário choque de adrenalina percorreu Del Rio.
Imaginou Cruz ligando para o chefe: “Jack, cara, o Ricky enfartou. O que eu faço?”
– Tudo bem, Rick? – chamou Cruz.
– Tudo. Tudo. Emilio, vamos ver quanto tempo você leva para ligar esse motor.
Cruz se espremeu rente às prateleiras, entrou na van e usou a chave de fenda acoplada a seu canivete para remover a tampa do tambor da ignição. Enquanto ele puxava os fios, Del Rio foi tateando até os fundos da van para verificar a carga.
Contou as pilhas de caixas e fez as contas: quatrocentas caixas, todas ainda lacradas, com exceção de uma. Em cada caixa estava anotado o número de frascos que continha, o número de comprimidos por frasco e o número de miligramas por comprimido. Ele pegou um dos frascos, sacudiu-o e tornou a guardá-lo.
Havia uma tonelada de Oxy ali. Se não houvesse 30 milhões de dólares dentro daquela van, não seria culpa sua.
– Houston, temos contato – avisou Scotty.
Del Rio fechou as portas do compartimento de carga, saiu de trás da van e entrou no banco do carona. Scotty se espremeu entre os dois bancos.
Cruz pôs o câmbio na posição drive e acendeu os faróis. Bem nessa hora, ouviu-se o rugido alto e metálico de um motor vindo do lado de fora do armazém. As luzes piscaram, em seguida se acenderam. Parecia dia claro na Red Cat.
Puta que pariu.