Private: O Suspeito Nº 1
capítulo 57
FUI MEIO ARRASTADO ENTRE OS policiais até a enfermaria do Twin Towers, onde uma enfermeira passou um cotonete com álcool nos meus cortes e arranhões. Ela também fez um curativo no meu queixo.
Eu estava pensando em Colleen. Pensando que, se estivesse mesmo grávida, era impossível o bebê ser meu.
Exceto por nossa farrinha de despedida uma semana antes, fazia mais de seis meses que eu não a via. Teria percebido se ela estivesse com seis meses de gravidez, não teria?
No entanto, como dissera Tandy, a morte de um feto era uma circunstância agravante quando associada a um homicídio. Sim, minha fiança seria negada. Eu poderia muito bem passar o ano seguinte inteiro naquele esgoto antes de ir a julgamento.
Desviei meu foco enquanto, alguns metros dali, Tandy explicava ao médico que eu havia tropeçado e, como estava algemado, não conseguira aparar a queda.
– E o hematoma atrás da cabeça? – perguntou o médico, um homem branco já passado da meia-idade. Caso tivesse se formado entre os 99,9% melhores alunos de sua turma, não estaria trabalhando naquele lugar.
– Jack é daquele tipo senhor do universo, sabe como é? – brincou Tandy. – Não gosta de ficar detido. Quando eu o estava colocando no banco de trás do carro, ele bateu com a cabeça. – Ele girou o corpo para mostrar exatamente como teria acontecido.
– Foi isso mesmo? – perguntou-me o médico.
Negar teria sido um erro. Alguns anos antes, um detento havia reclamado com um observador da ACLU, a União Americana de Direitos Civis, que nenhum detento do seu setor tivera autorização para tomar banho em quatro semanas. Ele foi espancado. Teve uma das pernas quebrada. A ACLU se envolveu no caso, mas, até onde eu sabia, o sujeito ainda estava no presídio aguardando julgamento.
– Foi como o inspetor está dizendo. Eu fui desajeitado.
– Anotado – respondeu o médico.
– Pode me dar uma aspirina?
Tandy assentiu.
– Dê uma aspirina a ele, doutor. Nosso presente de despedida.
– Cale a boca, Tandy – disse Caine.
Eu queria fazer Tandy sofrer, e muito. Torci para viver o suficiente para conseguir isso. Tandy e Ziegler acenaram e saíram rastejando para o corredor.
– Aguente firme, Jack – disse-me Caine. – Estou focado em uma coisa: tirar você daqui. Nunca deixei você na mão antes e esta não vai ser a primeira vez.
Uma enfermeira mediu meus sinais vitais, em seguida fez uma avaliação de meu estado mental para ver se eu era maluco. Ou se eu pretendia me enforcar. Ou cometer assassinato.
Da enfermaria fui levado para um grande recinto aberto. Instruíram-me a tirar a roupa e passei por um exame físico no estilo militar. Afastei as duas nádegas, tossi quando mandaram e deixei o guarda examinar meus orifícios.
Fui declarado apto e escoltado de volta para o setor de detenção acompanhado por um jovem agente ainda em treinamento que puxou papo comigo. Disse que pretendia sair do presídio às cinco horas naquele dia. Tinha que ir buscar os pais no aeroporto.
Ele pegou meu relógio, meu celular, minha carteira, meu cinto e meus cadarços. Meus dedos foram pressionados em uma leitora eletrônica de digitais. Fiquei em pé em frente a uma escala de altura segurando um número diante do peito. Virei-me para a esquerda, em seguida para a direita, conforme solicitado pelo funcionário entediado que operava a câmera.
Fiz o que me mandaram, mas estava tomado por vários sentimentos que começavam com a letra D: depressão, desmoralização, degradação.
À minha volta, por toda parte, pessoas vomitavam, gritavam, ameaçavam, cuspiam, e pareciam estar implorando para serem maltratadas.
Eu queria gritar: Eu não sou como esses caras! Sou inocente!
Teria sido como gritar para dentro de um buraco que conduzisse direto ao centro da Terra.
E minha manhã estava apenas começando.