Private: O Suspeito Nº 1

James Patterson e Maxine Paetro · Capítulo 106 de 135

Páginas do PDF

Private: O Suspeito Nº 1

capítulo 103

 

 

CRUZ PUXOU OS FIOS PARA interromper a ligação direta que acabara de fazer, desligando o motor. Também apagou os faróis. Ficou sentado, segurando com força o volante, olhando pelo para-brisa escurecido e pensando: É claro que havia um gerador. A Red Cat tinha um gerador para o caso de a energia cair quando estivessem fabricando os vasos.

Cruz virou-se para Del Rio no mesmo instante em que o colega agarrava seu braço e ordenava:

– Abaixe-se.

Fez o que Del Rio mandava e pensou: E agora? Havia pedaços do telhado no chão da sala do forno, e a chuva devia estar entrando pelo buraco no teto. Se alguém descobrisse isso… E eles estavam presos ali, não podiam sequer tentar escapar.

Aquilo era a definição perfeita de ser pego com a mão na massa. Literalmente. Ele estava com as mãos sujas do sangue de um mafioso. Sabia o que diria quando os arrancassem da van e os jogassem de cara no chão de concreto.

Vocês nos pegaram. Nós perdemos.

– Está ouvindo? – indagou Scotty em voz baixa.

Cruz ouviu homens conversando em meio ao estrondo do gerador. As vozes foram ficando mais altas conforme passavam pela porta do escritório e entravam no espaço principal do armazém.

Cruz torceu para não decidirem verificar os fornos, para não olharem dentro da van. Mas as vozes ficavam mais próximas.

– Está vendo alguma coisa? Porque eu não estou – disse um dos homens. – Cadê a porcaria da van?

– Ela está aqui. Pare de se preocupar, Victor. Está escondida nos fundos. Bem ali. Atrás daquelas prateleiras de merda.

No fim das contas, estavam ali por causa da van. Quem alugava aquele espaço queria ter certeza de que os seus milhões continuavam seguros. Aqueles homens não eram policiais. Eram marginais.

Cruz tirou a pistola do cós da calça. Del Rio fez o mesmo.

– Está bem, está bem – disse uma voz. Melhor para você, Sammy. Quero tirar esse negócio daqui amanhã de manhã.

– Se você prefere.

– Eu prefiro. Sammy, você e Mark…

As duas vozes diminuíram quando os homens deram meia-volta e tomaram outra vez o rumo do escritório.

Cruz pensou no homem que tinha dito “Sammy”. E tudo se encaixou no lugar. Sammy, o cara do cavanhaque e dos piercings, um viciado morto-vivo que ele conhecia havia anos, estava subindo na vida. O mesmo Sammy que tinha aceitado 20 pratas em troca de um torpedo e dito que todo mundo sabia que a van estava dentro de um armazém.

Todo mundo sabia?

Algumas pessoas sabiam.

Ele sabia, porra.

O cérebro de Sammy parecia uma maçaroca. Ele diria e faria qualquer coisa por droga.

E o cara que Sammy tinha chamado de Victor?

Cruz achava que também o conhecia.

Espiou por cima do painel e viu as nucas dos dois homens que entravam no escritório. A porta se fechou, e então as luzes do armazém se apagaram. Seu coração ainda batia com força, as palmas das mãos e as axilas suavam.

Scotty murmurava:

– Ah, cara, ah, cara.

– Um dos caras era Sammy – disse Cruz. – Lembra-se dele, Rick?

– O das botas de caubói azul-turquesa? Cheio de metal no nariz?

– Isso. O que se vendeu por 20 pratas. E acho que o que está procurando a van é Victor Spano. Ele trabalha para a máfia de Chicago, não é?

– Isso – confirmou Del Rio. – Spano. Pode ser ele, sim. Agora temos que esperar. Segurar as pontas.

O tempo passou arrastado e Cruz contou minutos demais no escuro, sentindo o cheiro do próprio suor, pensando na vez em que entrara numa briga de canivete e o cara havia sacado uma arma. E em quando estava na cama com uma mulher e o marido dela entrou no quarto.

Estava pensando em sua última luta profissional contra Michael Alvarez e no soco que tinha posto fim à sua carreira quando Del Rio disse:

– Tudo bem. Vamos lá.

Del Rio acendeu a luz do teto. Cruz torceu os fios e conseguiu uma faísca. O motor ganhou vida e ele acelerou.

Acendeu os faróis, iluminando os vasos, e pôs o câmbio em drive. Soltou o freio e a van partiu, esbarrando nas prateleiras, que se desequilibraram em câmera lenta e derrubaram os vasos no chão.

Cruz deu ré, girou o volante e foi manobrando devagar até os pneus se afastarem das prateleiras.

Havia duas portas metálicas de enrolar que davam para Artemus. A primeira se abria para uma rampa até a rua. A segunda ia dar em uma plataforma de carga sem rampa. Uma queda de 2 metros e meio até o solo.

– A da esquerda, certo? – perguntou Cruz.

– O quê? – retrucou Del Rio.

– A porta que dá para a rua é a da esquerda, não é?

– Pense bem, Emilio.

Cruz tinha quase certeza de que a porta que dava para a rua era a da esquerda. Pisou firme no acelerador e arremeteu a van contra o metal fino da porta metálica, arrancando os batentes da parede.

Scotty repetia “Ai, cara, ai, cara” como se fosse um mantra. Cruz atravessou a porta rezando para estar certo.