Private: O Suspeito Nº 1
capítulo 2
EU JÁ VIRA INÚMEROS CADÁVERES quando servira no Afeganistão. Há muitos anos investigar assassinatos faz parte do meu trabalho e cheguei a testemunhar a morte de alguns amigos.
Nada disso me protegeu do horror de ver o corpo ensanguentado e sem vida de Colleen. Seu sangue havia salpicado a colcha e embebido o tecido. O suéter tinha tanto sangue que eu não podia ver os ferimentos. Tinha sido apunhalada? Havia levado um tiro? Eu não sabia dizer.
As cobertas estavam bem esticadas sobre a cama e não percebi nenhum sinal de luta. Tudo no quarto estava exatamente como eu deixara quatro dias antes – tudo, exceto o cadáver de Colleen bem ali na minha frente.
Pensei na tentativa de suicídio de Colleen após nosso rompimento seis meses antes – ainda podia ver as cicatrizes, finas linhas claras nos pulsos. Mas aquilo não era suicídio.
Não havia arma em cima ou perto da cama.
Colleen parecia ter entrado no meu quarto, posto a cabeça sobre o travesseiro e depois ter sido morta enquanto dormia.
Mas isso não fazia o menor sentido.
Foi nessa hora que entrou em ação o que me restava de instinto de sobrevivência. A pessoa que havia matado Colleen podia ainda estar na casa. Fui até o banco sob a janela onde guardava minha pistola.
Minhas mãos tremiam quando ergui a tampa do banco e peguei a caixa de metal onde guardava a arma. A caixa estava leve. Vazia.
Abri as portas do armário, espiei debaixo da cama e não vi ninguém, nenhuma cápsula, nada. Vesti a calça jeans, enfiei uma camiseta e estudei cada janela e cada porta da casa, verificando as fechaduras e erguendo os olhos para as claraboias em busca de vidros quebrados.
Então comecei a repassar mentalmente os últimos minutos.
Tinha certeza de que a porta estava trancada quando cheguei. E agora tinha certeza de que todas as outras entradas possíveis estavam fechadas.
Isso só podia significar que alguém havia entrado em minha casa usando uma chave eletrônica e o acesso biométrico. Alguém que me conhecia. Colleen tinha sido minha assistente e namorada por um ano antes de terminarmos. Eu não havia apagado seus códigos de segurança.
Ela não era a única que tinha acesso à minha casa, mas talvez não fosse ser necessário adivinhar quem a matara.
Minha casa era monitorada pelo melhor sistema de segurança já fabricado. Havia câmeras por toda parte, acima das portas, na rua do lado de fora e cobrindo um ângulo de 180 graus na praia em frente ao meu deque.
Abri as portas do armário do equipamento de segurança e acionei o interruptor para ligar os seis monitores de vídeo empilhados em duas colunas de três. Todas as seis telas se acenderam – e todas as seis estavam pretas. Pressionei novamente as teclas do controle remoto, e ainda uma terceira vez antes de entender que o disco rígido havia desaparecido. Tudo o que restava era um cabo desconectado.
Peguei o telefone ao lado do sofá e liguei para o número direto de Justine no escritório. Eram quase sete da noite. Ela ainda estaria no trabalho?
Justine atendeu no primeiro toque.
– Oi, Jack. Ficou com fome, afinal?
– Justine. Aconteceu uma coisa horrível.
Minha voz falhou quando me forcei a dizer:
– É a Colleen. Ela está morta. Algum filho da mãe a matou.