Private: O Suspeito Nº 1
capítulo 28
ENQUANTO FALAVA AO CELULAR COM um cara chamado Sammy, Cruz dirigia para o bairro de Hollenbeck, no leste de Los Angeles. Ao desligar, disse a Del Rio:
– Conheço Sammy desde que ele nasceu. Não imaginava que fosse durar tanto tempo. Pensei que a esta altura ele seria apenas uma lembrança na cabeça da avó.
Cruz conhecia uma porção de Sammys. Ele próprio poderia ter virado um deles. Tinha crescido em Aliso Village, um conjunto habitacional famoso pela alta taxa de criminalidade, na parte baixa da cidade, conhecida como Flats. Começara a lutar boxe, tornara-se profissional e era um peso médio com carreira ascendente quando uma concussão séria o deixou com visão dupla por algum tempo. Talvez tenha clareado sua mente o bastante para ele procurar uma alternativa.
Cruz havia trabalhado por um ano no Departamento de Polícia de Los Angeles e então Bobby Petino – o promotor Petino –, primo em segundo grau de seu avô, conseguiu-lhe um emprego na seção de investigação de seu escritório. Seu chefe era um ex-policial durão chamado Franco, e foi assim que Cruz aprendeu. Viu muitos cadáveres, conheceu gente, entendeu o que precisava conseguir para ajudar a promotoria a ganhar um caso. Em três anos, era Franco quem trabalhava para ele.
Fazia dois anos que Jack Morgan comentara com Bobby Petino que precisava de mais um investigador, e Petino dera a Cruz a segunda chance de sua vida. Mandara-o conversar com Jack.
A sintonia foi perfeita.
Trabalhar na Private em parceria com Del Rio, um verdadeiro herói de guerra, era o melhor emprego de sua vida. Melhor que isso só se dirigisse a Private de Los Angeles – se e quando Jack resolvesse sair de cena.
– Mas me diga, esse tal de Sammy está na folha de pagamentos? – perguntou Del Rio.
– Não. Apenas freelancer.
O Whittier Boulevard era uma via de quatro pistas que passava por um bairro pobre. Durante o dia, postados diante de suas lojas, vendedores anunciavam camisetas e meias, e famílias levavam os filhos pequenos para fazer compras. À noite, traficantes operavam nos cantos escuros. Garotas de programa faziam ponto.
Mas não havia horário do dia ou da noite em que aquele lugar combinasse com um Mercedes. Naquele exato momento, o carro se destacava como um par de sapatos de verniz em um baile de camponeses.
Cruz preferiria estar em um Ford. Um Ford cinza. Como o que dirigia quando trabalhava para a promotoria. Mas Jack tinha um fraco por carros bonitos.
– Quero estacionar esta lancha na Kinney da South Soto Street – disse Cruz. – Dois quarteirões adiante.
Estacionaram e depois caminharam por uma galeria comercial com lojas caindo aos pedaços e janelas gradeadas. Depois de cruzar a rua em frente ao Johnny’s Shrimp Boat, Cruz viu Sammy à sua espera em frente à padaria La Mascota.
Sammy tinha 30 anos, era branco e usava os cabelos pretos despenteados, um cavanhaque, botas azul-turquesa de bico fino e tantos piercings de metal no rosto que daria para abrir uma loja de ferragens.
– Quem é esse aí? – perguntou Sammy, apontando para Del Rio.
– Rick. Meu colega. Ele é gente boa – respondeu Cruz.
Sammy estava chapado: pupilas dilatadas, agitado, mas pronto para fazer negócio.
– Você ouviu alguma coisa sobre um grande carregamento de Oxy que teria chegado à cidade ontem à noite? – perguntou Cruz, tirando uma nota de 20 do bolso e segurando-a com dois dedos.
– Numa van refrigerada?
Cruz concordou e insistiu:
– O que você sabe a respeito?
Sammy arrancou a nota da mão de Cruz, deu um breve sorriso desdentado e respondeu:
– Sei que a van está trancada, longe das ruas. Tem rolado muito boato sobre como entrar na jogada.
– Sam, essa dica não valia nem 20 centavos – disse Cruz.
– Cara, eu não posso dizer o que não sei. Aí, você conhece Siggy O.?
– Conheço – respondeu Cruz. – Conheço Sig, sim. Faz um tempo que não o vejo.
– Por mais 20 eu posso mandar um torpedo para ele.