Private: O Suspeito Nº 1
capítulo 82
O PAI DE CARMINE NOCCIA ERA um gângster; o meu também. Ambos tínhamos frequentado universidades da Ivy League, servíramos como fuzileiros navais e havíamos herdado de nossos pais os negócios da família.
Fora isso, Noccia e eu não tínhamos nada em comum.
Carmine era a terceira geração de matadores e nunca fora capturado ou sequer indiciado. Constava na lista de observação do FBI, mas a polícia federal não tinha indícios suficientes para comprovar que ele havia sido o mandante de três assassinatos que investigavam.
Não havia digitais, armas fumegantes nem imagens de segurança.
Todos os delatores tinham sido mortos antes de testemunhar.
O pai de Carmine, o chefão da Máfia, estava a ponto de se aposentar e, segundo diziam, Carmine iria assumir seu posto. Mas não era só isso. Corria o boato de que, no ano seguinte, a família Noccia iria expandir seus negócios para o leste, da região metropolitana de Las Vegas até Chicago.
Uma organização desgarrada retornar às origens era algo inédito na história da Máfia, mas Noccia era um cara de fibra e fora criado para realizar grandes feitos.
Aquela van recheada de 30 milhões em remédios tarja preta seria o primeiro grande passo do plano de expansão de Noccia, e era essa mesma van que estava atrapalhando seu caminho. E como seis meses antes eu recorrera a Carmine para proteger meu irmão de uma lição da qual ele talvez não tivesse sobrevivido, estava devendo favores a um mafioso. E esse mafioso me chamava pelo primeiro nome.
Noccia me ligou por volta das três da manhã. Não disse alô. Falou apenas que os seus distribuidores, que já haviam pagado pelas drogas, estavam muito tristes.
Não era a primeira vez que me dizia aquilo.
– Estamos trabalhando no caso, Carmine – respondi. – Não precisava me ligar para me acordar.
– Não tenho relógio aqui – retrucou ele.
Uma forma de dizer que quem mandava no meu tempo era ele.
Atualizei Noccia sobre o plano que estava sendo posto em prática e ele desligou sem se despedir.
Voltei a dormir.
Eu corria atrás de Colleen tentando lhe dizer que sentia muito, mas ela não parava de fugir de mim. O telefone voltou a tocar.
Dessa vez era meu bom amigo da polícia, o inspetor Mitchell Tandy.
– Estou nas redondezas, Jack. Passo aí com prazer se você tiver alguma coisa para me dizer.
– Eu já disse, Mitch. Não fui eu.
Tandy deu uma risada satisfeita e desligou.
Quando Justine ligou para avisar sobre a prisão de Danny Whitman por suspeita de assassinato, eu já estava totalmente desperto.