Virologia

Stephen N.J. Korsman · Capítulo 99 de 211

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Virologia

Vírus linfotrópico T humano

Quatro linhagens distintas de vírus linfotrópico T humano (HTLV) foram identificadas desde a descoberta do tipo 1 no início dos anos 1980. O HTLV-1 é reconhecido como causador de tumor maligno e doença neurológica em humanos, enquanto o HTLV-2 está associado a casos incomuns de doença semelhante à mielopatia/paraparesia espástica trópica associada ao HTLV-1 (HAM/TSP). Pouco se sabe sobre HTLV-3 e 4 e se eles causam doença nos seres humanos é motivo de debate.

 

Epidemiologia

Estima-se que 20 milhões de pessoas no mundo estejam infectadas por HTLV-1 e a maioria permanecerá assintomática durante toda a vida. O vírus é endêmico no Japão, Caribe, Papua Nova Guiné, Américas Central e do Sul, África Central e na população aborígene da Austrália. A soroprevalência varia de 0,1% e 30% nas populações endêmicas, aumentando com a idade. A incidência é maior nas mulheres. O vírus pode ser transmitido sexualmente e pelos derivados do sangue que contêm elementos celulares (o HTVL-1 encontra-se, predominantemente, associado a células). Estima-se o risco de soroconversão após a transfusão de derivados do sangue contaminados em 40% a 60%. A transmissão do HTLV-2 foi associada ao compartilhamento de agulhas dos usuários de drogas endovenosas. O HTLV-1 também pode ser transmitido verticalmente, resultante de amamentação prolongada (> 6 meses) em áreas de prevalência elevada. O risco de uma mãe infectada de transmitir o vírus para o bebê pode ser de até 30%.

 

Quadro clínico

Leucemia de células T/linfoma do adulto

A leucemia de células T/linfoma do adulto (ATLL) (um linfoma não

Hodgkin) pode se apresentar na forma cutânea, como leucemia aguda de células T, leucemia crônica de células T, assim como uma forma variante fulminante. A doença afeta, principalmente, os homens e o período de incubação varia de 15 a 20 anos. De 2% a 4% das infecções por HTLV-1 resultam no desenvolvimento de ATLL. Indivíduos com uma carga viral elevada de HTLV-1 são mais propensos a desenvolver a doença. Os pacientes podem apresentar concomitantemente lesões cutâneas, linfadenopatia, hepatoesplenomegalia e sede. Bioquimicamente, os níveis de lactato desidrogenase (LDH), assim como de cálcio, podem estar elevados. As células T malignas apresentam uma aparência polilobar ou em “flor” característica em esfregaços de sangue periférico ou de medula óssea

(Fig. 3). As células infectadas apresentam um imunofenótipo de CD3 +, CD4+ e CD25+ (receptor da interleucina 2). O HTLV-2 foi associado à desordem linfoproliferativa, mas uma relação de causa e efeito com esse vírus ainda deve ser elucidada.

 

FIG. 3 Células em flor devido à infecção por HTLV (A fotografia é uma cortesia da Hematologia, Tygerberg Hospital, University of Stellenbosch and National Health Laboratory Service.)

 

Mielopatia/paraparesia espástica tropical associada ao HTLV-1

A mielopatia/paraparesia espástica tropical associada ao HTLV-1 (HAM/TSP) pode ocorrer logo após a infecção inicial pelo vírus. Ela é mais frequente nas mulheres do que nos homens. Clinicamente, a HAM/TSP apresenta-se com sinais do neurônio motor superior. Os sintomas incluem dor crônica nas costas, incontinência fecal e urinária, constipação e uma bexiga hiperativa. Distúrbios sensoriais podem ocorrer mais tarde no curso da doença. Deve-se considerar a HAM/TSP no diagnóstico diferencial de esclerose múltipla. A patologia de base inclui múltiplas lesões atróficas e desmielinizantes disseminadas no cérebro e na medula espinal. A morte geralmente ocorre 2 anos após o início da doença.

O HTLV-1 está associado a diversas doenças inflamatórias, por exemplo,

uveíte, polimiosite, alveolite, artrite, tireoidite e doença de Sjögren. O papel exato desempenhado pelo vírus em várias dessas desordens permanece desconhecido. O HTLV-1 também foi associado a determinadas infecções, por exemplo, a tuberculose, escabiose crostosa e estrongiloidíase. O HTLV-2 também foi associado à mielopatia.

 

Diagnóstico virológico laboratorial

O diagnóstico laboratorial da infecção pelo HTLV é baseado na detecção sorológica da resposta de anticorpos contra o vírus e na detecção do genoma viral integrado (provírus) às células CD4 do hospedeiro.

Os ensaios imunoenzimático (EIE) de aglutinação do látex são usados

como exames de triagem sorológicos para a infecção por HTLV e os ensaios positivos devem ser confirmados pelo Western blot. O Western blot também é capaz de distinguir entre os vírus HTLV-1 e HTLV-2. A reação em cadeia pela polimerase (PCR) também pode ser usada para detectar o ácido nucleico viral em espécimes de sangue periférico de doadores ou diagnosticar a infecção por HTLV em pacientes com ATLL. O líquido cefalorraquidiano pode ser investigado em pacientes com HAM/TSP para detectar a presença de níveis aumentados de proteína, pleiocitose linfocítica e anticorpos específicos contra o HTLV, assim como para a detecção do ácido nucleico viral pela PCR.

Pare e pense

 como os retrovírus se replicam?

 Quais são os possíveis locais de ação para os fármacos para bloquear a

replicação dos retrovírus?

 

Tratamento

A ATLL tem um prognóstico sombrio. Tentaram-se os mesmos protocolos de tratamento usados para o linfoma de Hodgkin, mas com resultados variados. Outros tratamentos tentados incluem o transplante de medula óssea, terapia de combinação com IFN alfa e AZT. As opções de tratamento para a HAM/TSP incluem o tratamento sintomático, vitamina C, esteroides anabólicos, fármacos citotóxicos, plasmaférese, IFN alfa e combinação de terapia antirretroviral.

Pontos principais

 Os retrovírus são vírus de RNA que se replicam através do DNA

usando uma enzima transcriptase reversa.

 Os vírus linfotrópicos T humanos (HTLV)-1 e 2 demonstram um

tropismo para os linfócitos T, resultando em infecção latente, por toda a vida, dessas células.

 O HTLV-1 é considerado um oncovírus devido a transativação pelo tax. A infecção pelo vírus HTLV-1 pode levar à leucemia de células

T/linfoma do adulto (ATLL) ou a mielopatia/paraparesia espástica tropical (HAM/TSP).

 

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