Virologia

Stephen N.J. Korsman · Capítulo 116 de 211

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Virologia

Capítulo 37: Filovírus

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Filovírus

 

A família Filoviridae é uma de quatro famílias da ordem

Mononegavirales (as outras são a Bornaviridae, Rhabdoviridae – incluindo o vírus da raiva – e Paramyxoviridae – incluindo o vírus do sarampo e muitos outros), caracterizadas pelo seu genoma de RNA senso negativo não segmentado. Sob a microscopia eletrônica, as partículas de filovírus parecem ser pleomórficas: como filamentos longos e finos (latim, fillum = fio), algumas vezes ramificados ou enrolados, dando a eles uma aparência característica de cajado de pastor.

Infecções humanas por filovírus são eventos raros, mas espetaculares,

frequentemente causando surtos dramáticos com taxas de mortalidade elevadas, geralmente afetando instalações de saúde.

O início da doença é súbito, começando com cefaleia severa e mal-estar

e, 5 a 7 dias depois, os pacientes desenvolvem manifestações hemorrágicas intensas, frequentemente com sangramento em diversos locais. As taxas de fatalidade variam de 25% a mais de 80%, tornando os filovírus um dos patógenos humanos mais virulentos. De fato, eles são tão virulentos que as epidemias tendem a ser autolimitantes: a maioria dos indivíduos morre muito rápido para sustentar uma transmissão continuada do vírus, enquanto os que escaparam da doença fogem da cena de horror.

O primeiro surto reconhecido de infecção por filovírus ocorreu em

Marburg e Frankfurt am Main, Alemanha, e em Belgrado, então Iugoslávia, em 1967: Macacos recém-importados de Uganda adoeceram e os cuidadores de animais, veterinários e trabalhadores de laboratório que tiveram contato com os animais doentes ou seu tecido e sangue desenvolveram uma doença grave caracterizada por sangramento profuso.

As investigações revelaram um vírus até então desconhecido (Fig. 1) que

chamaram de vírus de Marburg em homenagem à cidade onde ele foi isolado pela primeira vez.

FIG. 1 Microfotografia eletrônica colorida de partículas do vírus de Marburg realizadas em 1968 por F. A. Murphy. (A fotografia é uma cortesia do CDC/ F. A. Murphy).

Em 1976, epidemias de doença hemorrágica semelhante ocorreram em

Yambuku, no norte do Zaire, e em Maridi, no sul do Sudão (Fig. 2). A epidemia no Zaire afetou 318 pacientes com uma mortalidade de 88%, enquanto no Sudão foram 284 pacientes com uma mortalidade de 53%. Ambas foram causadas por filovírus; entretanto, esses vírus eram distintos do vírus de Marburg e entre eles, tendo sido denominados de vírus Ebola-Zaire e Ebola-Sudão.

FIG. 2 Equipe de vigilância de epidemia viajando pela floresta próxima a Yambuku, Zaire (atualmente, República Democrática do Congo) durante uma epidemia do vírus Ebola em 1976. (A fotografia é uma cortesia do CDC/Joel Breman/Lyle Conrad.)

Desde então, identificaram-se mais três espécies de vírus Ebola: o Ebola-

Costa do Marfim, que infectou uma cientista suíça que fez uma autópsia em um chimpanzé morto na floresta Tai, na Costa do Marfim, em 1994; ela sobreviveu, sendo o único caso conhecido nos seres humanos. O Ebola-Boundibugyo que causou um surto na Uganda em 2007 com 93 casos. O Ebola-Reston é o único filovírus originário de um país fora da África, as Filipinas. Ele é patogênico para macacos e porcos, mas, por enquanto, não para os seres humanos.

Em várias epidemias do vírus Ebola, geralmente prolongadas, na África

central, morreram muitos primatas e outros animais. O abate de animais infectados pode levar à infecção da população humana com a consequente disseminação direta entre humanos. A grande virulência da doença causada pelo Ebola em gorilas e outros animais é preocupante em termos de conservação, mas os exclui como reservatórios naturais. O mais provável é que os gorilas contraiam a infecção pelo contato com as espécies que servem de reservatório para o vírus; no caso dos chimpanzés, provavelmente quando eles caçam animais menores para comer.

Diversos estudos tentaram identificar o reservatório. Desde os anos 1970,

os morcegos figuram na lista dos principais suspeitos: Casos iniciais de epidemias se deram muito próximos a ninhos de morcegos ou visitaram cavernas usadas por morcegos. Entretanto, apenas nos últimos anos pesquisas e estudos experimentais demonstraram a suscetibilidade e infecção natural dos morcegos frugívoros pelos filovírus (raposas voadoras, família Pteropodidae) que, atualmente, acredita-se serem os hospedeiros naturais desses vírus. Epidemias de febre hemorrágica causada pelos vírus de Marburg e Ebola parecem estar aumentando de frequência e magnitude; as razões para isso não estão claras. Os filovírus se disseminam por contato direto entre pessoas pelo sangue ou de outros fluidos corporais (fezes, vômito, urina, saliva, secreções respiratórias e sêmen) durante a fase sintomática da doença, mas não durante o período de incubação. Publicaram-se diretrizes para melhorar os procedimentos de controle de infecção em hospitais nos países em desenvolvimento onde, algumas vezes, falhas gritantes, como reutilização de agulhas não esterilizadas, favoreceram a transmissão nosocomial. O tratamento dos casos é de suporte; o principal foco é a prevenção da transmissão. Algumas vacinas experimentais demonstraram resultados iniciais promissores em estudos com animais, podendo estar disponíveis para os seres humanos e para espécies de animais ameaçadas no futuro.

FIG. 3 Distribuição geográfica de epidemias e casos de febres hemorrágicas causadas pelos vírus Ebola e Marburg e áreas onde ocorrem morcegos frugívoros (família Pteropodidae). (Dados do Global Alert and Response Dept., OMS.)

FIG. 4 Suposta disseminação dos filovírus na população humana.

 

Leitura complementar

Fisher-Hoch, S. P. Filoviruses. In: Zuckerman A.J., Banatvala J.E., Schoub B.D., Griffiths P.D., Mortimer P., eds. Principles and Practice of Clinical Virology. John Wiley & Sons Ltd., 2009. [6. ed. ISBN: 978-0-470-51799-4].

World Health Organization (WHO). Ebola haemorrhagic fever. Fact sheet N°103. Revised:

December 2011. http://www.who.int/mediacentre/factsheets/fs103/en/index.html. World Health Organization (WHO). Marburg haemorrhagic fever. Fact sheet. Revised: December

2011. http://www.who.int/mediacentre/factsheets/fs_marburg/en/index.html.

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