Virologia

Stephen N.J. Korsman · Capítulo 42 de 211

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Virologia

Capítulo 15: Desinfecção e esterilização

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Desinfecção e esterilização

 

Introdução

A esterilização e desinfecção são práticas importantes no ambiente clínico e laboratorial em que os vírus podem ser transmitidos para os seres humanos. Por exemplo, os instrumentos cirúrgicos não devem estar contaminados com patógenos ao serem usados em um procedimento; de maneira semelhante, a área que será aberta deve estar o mais limpa possível e não contaminada por microrganismos.

 

Definições

Esterilização: a destruição completa de todos os microrganismos viáveis de uma superfície, incluindo endósporos.

Desinfecção: a destruição de microrganismos de uma superfície até o

ponto em que eles não representem mais um perigo de causar doença.

Antissepsia: a desinfecção de tecido humano.

Descontaminação: remoção de organismos patogênicos de forma a

permitir o manuseio seguro.

 

Controle de infecção

O controle de infecção é um componente essencial da segurança em qualquer cenário em que haja a presença de patógenos. No cenário clínico ela inclui, por exemplo, o uso adequado de antissépticos, para o cuidado de lesões, práticas de limpeza ao operar, equipamentos esterilizados, segurança no manuseio de itens potencialmente infecciosos, como agulhas, e lavar as mãos adequadamente antes de tocar nos pacientes. Em determinadas

circunstâncias, é necessário o uso de roupas de proteção (Fig. 1), e o uso de luvas é essencial ao lidar com sangue. No cenário laboratorial, em que são feitas culturas de organismos específicos, inclui-se uma ampla gama de métodos para prevenir a transferência desses organismos para os indivíduos que trabalham com eles.

 

FIG. 1 Trabalhador da área da saúde se preparando para entrar em uma unidade de isolamento para pacientes infectados com patógenos altamente infecciosos. (A fotografia é uma cortesia do Prof. S. Mehtar, University of Stellenbosch.)

 

Métodos

Mecânicos

O método mais básico de desinfecção mecânica é a limpeza com sabão e

água para remover sujeira, material orgânico, como vômito, ou sangue, e para iniciar o processo de desinfecção. Sabão e detergentes são capazes de danificar determinadas membranas celulares e envoltórios virais. A limpeza

de um objeto ou superfície (Fig. 2) é fundamental antes que seja realizada uma desinfecção mais específica ou esterilização, que não é completamente eficaz na presença de sujeira ou material orgânico denso. Pode-se usar o ultrassom para remover sujeira onde o uso de detergentes ou remoção mecânica não é adequado.

 

FIG. 2 Limpeza mecânica associada a desinfetantes. (A fotografia é uma cortesia do CDC.)

A filtração é um meio pelo qual são removidas partículas grandes de uma

solução. Dependendo do tamanho dos poros do filtro, pode-se reter partículas de tamanhos diferentes. Alguns filtros são desenhados para filtrar apenas material particulado ou debris, enquanto alguns podem filtrar bactérias, mas permitem a passagem de vírus, e alguns podem filtrar, até mesmo, vírus quando usados em série, como no caso de filtro de ar com alta eficiência na separação de partículas (HEPA). Pode-se conseguir a esterilização de determinados líquidos através da filtração por meio da utilização de filtros combinados a agentes que ligam determinadas substâncias.

Calor

O calor é usado de maneiras variadas:

 Autoclaves – combinam calor, vapor e pressão para transmitir a energia

do calor para os organismos, sendo o processo ideal para destruí-los. Um protocolo usado frequentemente é de 121° C por, pelo menos, 15

minutos, o que matará todas as bactérias, protozoários, fungos e a

maioria dos vírus, mas não desativará os príons (Fig. 3).

 

FIG. 3 Autoclaves de carregamento (A) superior e (B) frontal. São utilizados tamanhos diferentes, dependendo das necessidades das instalações.

 Calor seco – os itens são aquecidos a temperaturas maiores do que nas

autoclaves, pois o calor seco não transfere a energia aos organismos tão

bem quanto a autoclave.

 Nos laboratórios, os itens pequenos, como as alças de metal usadas para

inocular placas de ágar com espécimes de pacientes, podem ser aquecidos até ficarem vermelhos.

 Ferver e cozinhar são eficazes na desinfecção, mas não deixam os

materiais esterilizados.

Nem tudo pode ser aquecido – plásticos, por exemplo, derretem (Fig. 4).

Determinadas substâncias, como pós, requerem o uso de calor seco, assim como determinados metais que poderiam oxidar em uma autoclave. A incineração é inapropriada para itens que devem ser reutilizados, sendo indicada para esterilizar o lixo hospitalar antes de jogá-lo fora.

 

FIG. 4 Kit para coleta de espécime para SARS – itens de plástico não resistem à exposição ao calor, requerendo esterilização por meio de radiação ou aplicação de óxido de etileno. (A fotografia é uma cortesia do Prof. S. Mehtar, University of Stellenbosch.)

 

Irradiação

Os raios X e gama podem ser utilizados para esterilizar objetos, sendo frequentemente usados para esterilizar itens de plástico descartáveis, como seringas e pipetadores. A radiação danifica o DNA e as estruturas proteicas nos organismos.

A luz ultravioleta é usada nas clínicas de atendimento a tuberculosos e

cabines de biossegurança para esterilizar as superfícies. Além de danificar o DNA e proteínas, a luz UV pode converter o oxigênio (O ) em ozônio (O ), 2 3 que é destrutivo para os microrganismos.

Químico

Alguns itens são sensíveis à ação de substâncias químicas, não podendo ser

esterilizadas por processo. (Tabela 1). É importante notar que a maioria dos desinfetantes pode ser afetado de maneira negativa por materiais orgânicos, que devem ser removidos por lavagem antes de serem desinfetados.

Tabela 1

Substâncias químicas usadas na esterilização e desinfecção e suas propriedades

 

Substância

química/grupo Descrição

químico

Óxido de etileno Tóxico, inflamável. Bom para itens que não podem ser aquecidos. É

demorado.

Ozônio Tóxico, instável, deve ser produzido no local. Usado para esterilização e

desinfecção de superfícies.

Aldeídos Tóxico, demorado para esterilização. O formaldeído pode ser usado como um

(formaldeído gás ou líquido.

CH 2O,

glutaraldeído

C 5H8O2)

Peróxido de Usado na desinfecção e antissepsia; também pode ser usado na esterilização

hidrogênio como um líquido ou gás (conhecido como método de esterilização por gás

(H2O2) de plasma).

Hipoclorito de Utilizado principalmente como um desinfetante a uma diluição de 1:10 da

sódio solução comercial de hipoclorito de sódio, na qual ele é mais ativo. O

(NaClO) ingrediente ativo é o ácido hipocloroso. Também são usados os

hipobromitos. Degrada-se na presença de matéria orgânica.

Cloro Na água, forma os ácidos hipocloroso e hipoclórico, que são os componentes

ativos.

Iodo Usado em diversos desinfetantes e antissépticos. A solução de Lugol consiste

em iodo e iodeto de potássio.

Dióxido de cloro Explosivo; frequentemente utilizado como desinfetante da água.

(ClO2)

Permanganato de Usado para desinfecção e como antisséptico. Também é usado como um

potássio agente antifúngico/antibacteriano tópico. (KMnO 4)

Fenol Também chamado de ácido carbólico. Os fenóis são comumente usados em

desinfetantes domésticos.

Compostos O cloreto de benzalcônio (BAC) é o mais conhecido. Relativamente não

quaternários tóxico e não corrosivo. É usado em toalhas de mãos, desinfetantes de amônio médicos.

(QACs)

Os vírus e a desinfecção

A capacidade de um agente em inativar um vírus depende das propriedades

do agente combinado com as propriedades do vírus (Tabela 2). Em geral, os vírus com envoltórios lipídicos são mais lábeis, sendo suscetíveis a solventes lipídicos (como o álcool) e detergentes, que degradam a membrana, enquanto os vírus sem envoltório são mais resistentes. A concentração do agente usado também determina a sua capacidade de inativação viral.

Tabela 2

Vírus e agentes que são eficazes contra eles

 

Vírus Env Agentes eficazes

Raiva + Calor, sabão, detergentes não iônicos, iodo, álcool, hipoclorito, QACs,

formaldeído

Ebola/Marburg + Solventes lipídicos, detergentes não iônicos, formaldeído, agentes

oxidantes, calor

Paramixovírus + Solventes lipídicos, detergentes não iônicos, formaldeído, agentes

oxidantes, QACs, calor

Influenza + Solventes lipídicos, detergentes não iônicos, formaldeído, agentes

oxidantes, fenóis, QACs, calor

Vírus de Lassa + Solventes lipídicos, detergentes não iônicos, formaldeído, agentes

oxidantes

Bunyavírus + Solventes lipídicos, detergentes não iônicos, formaldeído, agentes

oxidantes

Enterovírus − Hipoclorito, UV, formaldeído, fenóis Rinovírus − Hipoclorito, UV, formaldeído, fenóis Hepatite A − Hipoclorito, UV, formaldeído, fenóis Hepatite B + Solventes lipídicos, detergentes não iônicos, formaldeído, agentes

oxidantes, QACs

Hepatite C + Solventes lipídicos, detergentes não iônicos, formaldeído, agentes

oxidantes

Rubéola + Solventes lipídicos, detergentes não iônicos, formalina, calor, pH Herpes-vírus + Solventes lipídicos, detergentes não iônicos, formaldeído, agentes

oxidantes, QACs

HIV + Solventes lipídicos, detergentes não iônicos, formaldeído, agentes

oxidantes

Coronavírus + Solventes lipídicos, detergentes não iônicos, formaldeído, agentes

oxidantes

Adenovírus − Hipoclorito, cloro

Rotavírus − Hipoclorito, cloro

Poxvírus + Cloro, hipoclorito, QACs, formaldeído Papilomavírus − Hipoclorito, cloro

Parvovírus − Formaldeído, agentes oxidantes, radiação g

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