Virologia
Capítulo 15: Desinfecção e esterilização
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Desinfecção e esterilização
Introdução
A esterilização e desinfecção são práticas importantes no ambiente clínico e laboratorial em que os vírus podem ser transmitidos para os seres humanos. Por exemplo, os instrumentos cirúrgicos não devem estar contaminados com patógenos ao serem usados em um procedimento; de maneira semelhante, a área que será aberta deve estar o mais limpa possível e não contaminada por microrganismos.
Definições
Esterilização: a destruição completa de todos os microrganismos viáveis de uma superfície, incluindo endósporos.
Desinfecção: a destruição de microrganismos de uma superfície até o
ponto em que eles não representem mais um perigo de causar doença.
Antissepsia: a desinfecção de tecido humano.
Descontaminação: remoção de organismos patogênicos de forma a
permitir o manuseio seguro.
Controle de infecção
O controle de infecção é um componente essencial da segurança em qualquer cenário em que haja a presença de patógenos. No cenário clínico ela inclui, por exemplo, o uso adequado de antissépticos, para o cuidado de lesões, práticas de limpeza ao operar, equipamentos esterilizados, segurança no manuseio de itens potencialmente infecciosos, como agulhas, e lavar as mãos adequadamente antes de tocar nos pacientes. Em determinadas
circunstâncias, é necessário o uso de roupas de proteção (Fig. 1), e o uso de luvas é essencial ao lidar com sangue. No cenário laboratorial, em que são feitas culturas de organismos específicos, inclui-se uma ampla gama de métodos para prevenir a transferência desses organismos para os indivíduos que trabalham com eles.
FIG. 1 Trabalhador da área da saúde se preparando para entrar em uma unidade de isolamento para pacientes infectados com patógenos altamente infecciosos. (A fotografia é uma cortesia do Prof. S. Mehtar, University of Stellenbosch.)
Métodos
Mecânicos
O método mais básico de desinfecção mecânica é a limpeza com sabão e
água para remover sujeira, material orgânico, como vômito, ou sangue, e para iniciar o processo de desinfecção. Sabão e detergentes são capazes de danificar determinadas membranas celulares e envoltórios virais. A limpeza
de um objeto ou superfície (Fig. 2) é fundamental antes que seja realizada uma desinfecção mais específica ou esterilização, que não é completamente eficaz na presença de sujeira ou material orgânico denso. Pode-se usar o ultrassom para remover sujeira onde o uso de detergentes ou remoção mecânica não é adequado.
FIG. 2 Limpeza mecânica associada a desinfetantes. (A fotografia é uma cortesia do CDC.)
A filtração é um meio pelo qual são removidas partículas grandes de uma
solução. Dependendo do tamanho dos poros do filtro, pode-se reter partículas de tamanhos diferentes. Alguns filtros são desenhados para filtrar apenas material particulado ou debris, enquanto alguns podem filtrar bactérias, mas permitem a passagem de vírus, e alguns podem filtrar, até mesmo, vírus quando usados em série, como no caso de filtro de ar com alta eficiência na separação de partículas (HEPA). Pode-se conseguir a esterilização de determinados líquidos através da filtração por meio da utilização de filtros combinados a agentes que ligam determinadas substâncias.
Calor
O calor é usado de maneiras variadas:
Autoclaves – combinam calor, vapor e pressão para transmitir a energia
do calor para os organismos, sendo o processo ideal para destruí-los. Um protocolo usado frequentemente é de 121° C por, pelo menos, 15
minutos, o que matará todas as bactérias, protozoários, fungos e a
maioria dos vírus, mas não desativará os príons (Fig. 3).
FIG. 3 Autoclaves de carregamento (A) superior e (B) frontal. São utilizados tamanhos diferentes, dependendo das necessidades das instalações.
Calor seco – os itens são aquecidos a temperaturas maiores do que nas
autoclaves, pois o calor seco não transfere a energia aos organismos tão
bem quanto a autoclave.
Nos laboratórios, os itens pequenos, como as alças de metal usadas para
inocular placas de ágar com espécimes de pacientes, podem ser aquecidos até ficarem vermelhos.
Ferver e cozinhar são eficazes na desinfecção, mas não deixam os
materiais esterilizados.
Nem tudo pode ser aquecido – plásticos, por exemplo, derretem (Fig. 4).
Determinadas substâncias, como pós, requerem o uso de calor seco, assim como determinados metais que poderiam oxidar em uma autoclave. A incineração é inapropriada para itens que devem ser reutilizados, sendo indicada para esterilizar o lixo hospitalar antes de jogá-lo fora.
FIG. 4 Kit para coleta de espécime para SARS – itens de plástico não resistem à exposição ao calor, requerendo esterilização por meio de radiação ou aplicação de óxido de etileno. (A fotografia é uma cortesia do Prof. S. Mehtar, University of Stellenbosch.)
Irradiação
Os raios X e gama podem ser utilizados para esterilizar objetos, sendo frequentemente usados para esterilizar itens de plástico descartáveis, como seringas e pipetadores. A radiação danifica o DNA e as estruturas proteicas nos organismos.
A luz ultravioleta é usada nas clínicas de atendimento a tuberculosos e
cabines de biossegurança para esterilizar as superfícies. Além de danificar o DNA e proteínas, a luz UV pode converter o oxigênio (O ) em ozônio (O ), 2 3 que é destrutivo para os microrganismos.
Químico
Alguns itens são sensíveis à ação de substâncias químicas, não podendo ser
esterilizadas por processo. (Tabela 1). É importante notar que a maioria dos desinfetantes pode ser afetado de maneira negativa por materiais orgânicos, que devem ser removidos por lavagem antes de serem desinfetados.
Tabela 1
Substâncias químicas usadas na esterilização e desinfecção e suas propriedades
Substância
química/grupo Descrição
químico
Óxido de etileno Tóxico, inflamável. Bom para itens que não podem ser aquecidos. É
demorado.
Ozônio Tóxico, instável, deve ser produzido no local. Usado para esterilização e
desinfecção de superfícies.
Aldeídos Tóxico, demorado para esterilização. O formaldeído pode ser usado como um
(formaldeído gás ou líquido.
CH 2O,
glutaraldeído
C 5H8O2)
Peróxido de Usado na desinfecção e antissepsia; também pode ser usado na esterilização
hidrogênio como um líquido ou gás (conhecido como método de esterilização por gás
(H2O2) de plasma).
Hipoclorito de Utilizado principalmente como um desinfetante a uma diluição de 1:10 da
sódio solução comercial de hipoclorito de sódio, na qual ele é mais ativo. O
(NaClO) ingrediente ativo é o ácido hipocloroso. Também são usados os
hipobromitos. Degrada-se na presença de matéria orgânica.
Cloro Na água, forma os ácidos hipocloroso e hipoclórico, que são os componentes
ativos.
Iodo Usado em diversos desinfetantes e antissépticos. A solução de Lugol consiste
em iodo e iodeto de potássio.
Dióxido de cloro Explosivo; frequentemente utilizado como desinfetante da água.
(ClO2)
Permanganato de Usado para desinfecção e como antisséptico. Também é usado como um
potássio agente antifúngico/antibacteriano tópico. (KMnO 4)
Fenol Também chamado de ácido carbólico. Os fenóis são comumente usados em
desinfetantes domésticos.
Compostos O cloreto de benzalcônio (BAC) é o mais conhecido. Relativamente não
quaternários tóxico e não corrosivo. É usado em toalhas de mãos, desinfetantes de amônio médicos.
(QACs)
Os vírus e a desinfecção
A capacidade de um agente em inativar um vírus depende das propriedades
do agente combinado com as propriedades do vírus (Tabela 2). Em geral, os vírus com envoltórios lipídicos são mais lábeis, sendo suscetíveis a solventes lipídicos (como o álcool) e detergentes, que degradam a membrana, enquanto os vírus sem envoltório são mais resistentes. A concentração do agente usado também determina a sua capacidade de inativação viral.
Tabela 2
Vírus e agentes que são eficazes contra eles
Vírus Env Agentes eficazes
Raiva + Calor, sabão, detergentes não iônicos, iodo, álcool, hipoclorito, QACs,
formaldeído
Ebola/Marburg + Solventes lipídicos, detergentes não iônicos, formaldeído, agentes
oxidantes, calor
Paramixovírus + Solventes lipídicos, detergentes não iônicos, formaldeído, agentes
oxidantes, QACs, calor
Influenza + Solventes lipídicos, detergentes não iônicos, formaldeído, agentes
oxidantes, fenóis, QACs, calor
Vírus de Lassa + Solventes lipídicos, detergentes não iônicos, formaldeído, agentes
oxidantes
Bunyavírus + Solventes lipídicos, detergentes não iônicos, formaldeído, agentes
oxidantes
Enterovírus − Hipoclorito, UV, formaldeído, fenóis Rinovírus − Hipoclorito, UV, formaldeído, fenóis Hepatite A − Hipoclorito, UV, formaldeído, fenóis Hepatite B + Solventes lipídicos, detergentes não iônicos, formaldeído, agentes
oxidantes, QACs
Hepatite C + Solventes lipídicos, detergentes não iônicos, formaldeído, agentes
oxidantes
Rubéola + Solventes lipídicos, detergentes não iônicos, formalina, calor, pH Herpes-vírus + Solventes lipídicos, detergentes não iônicos, formaldeído, agentes
oxidantes, QACs
HIV + Solventes lipídicos, detergentes não iônicos, formaldeído, agentes
oxidantes
Coronavírus + Solventes lipídicos, detergentes não iônicos, formaldeído, agentes
oxidantes
Adenovírus − Hipoclorito, cloro
Rotavírus − Hipoclorito, cloro
Poxvírus + Cloro, hipoclorito, QACs, formaldeído Papilomavírus − Hipoclorito, cloro
Parvovírus − Formaldeído, agentes oxidantes, radiação g
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