Virologia
Capítulo 34: Orthomixovírus
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Orthomixovírus
A família Orthomyxoviridae contém três gêneros (ou tipos): os vírus da
Influenza A, B e C. Eles podem ser diferenciados através de sua nucleoproteína (NP) e proteínas da matriz (M) que são antigenicamente distintas.
Os vírus da influenza têm um genoma composto de um RNA segmentado
de fita simples negativo (influenza A e B: oito segmentos; influenza C: sete segmentos). O envelope viral contém dois antígenos glicoproteicos importantes na superfície: hemaglutinina (HA ou H) e neuraminidase (NA
ou N) (Fig. 1). A HA é responsável pela adsorção ao receptor celular, mas ela deve, primeiro, sofrer clivagem pós-tradução, por uma protease semelhante à tripsina, em dois peptídeos, HA1 e HA2, antes do vírus se tornar infeccioso. A NA é enzimaticamente ativa, participando da maturação e liberação viral.
FIG. 1 Estrutura do vírus da influenza A.
Nomenclatura do vírus da influenza: tipo/localização do
isolamento/número consecutivo/ano do isolamento, por exemplo, A/Sidnei/5/97 [H3N2]
Os vírus da influenza causam doença nos seres humanos segundo dois
padrões distintos:
1. Epidemias que ocorrem regularmente. Em áreas temperadas e mais frias,
essas epidemias ocorrem durante o inverno, enquanto nas áreas tropicais, elas ocorrem a qualquer hora. Variam em magnitude.
A influenza sazonal (epidêmica) pode ser causada pelos vírus da
influenza A ou B (o vírus da influenza C está associado a uma doença semelhante ao resfriado, especialmente nas crianças). Conforme circulam na população humana, esses vírus sofrem mudanças antigênicas sutis e contínuas nos seus antígenos de superfície. Isso é chamado de variação antigênica do tipo drift, sendo provavelmente resultante da imunidade preexistente na população.
Apesar de a maioria das pessoas ter algum grau de imunidade
preexistente devido a infecções passadas, a influenza é uma causa importante de morbidade e mortalidade em grupos de alto risco. Fármacos antivirais (adamantanos: amantadina, rimantadina; inibidores da neuraminidase: zanamivir, oseltamivir) estão disponíveis, mas a medida profilática mais importante é a vacinação. Vacinas inativada (partículas ou subunidades virais) ou viva atenuada (FluMist®) estão disponíveis. Elas contêm uma variante de influenza A H1N1, uma de influenza A H3N2 e uma de influenza B. A vacinação deve ser repetida anualmente usando-se vacinas que incorporam as variantes que mais provavelmente circularão na estação vindoura. Uma rede de fiscalização global isola variantes do mundo
todo para monitorar essas alterações (Tabela 1).
Tabela 1
Recomendações da OMS para as vacinas sazonais contra a influenza
Clinicamente, a influenza foi descrita como uma “doença que não muda
causada por um vírus que muda”. Ela é transmitida por perdigotos respiratórios. Depois de um período de incubação curto (aproximadamente 48 horas), o início é súbito com febre, cefaleia, fotofobia, tremores, tosse seca, mal-estar, mialgia e garganta seca. A influenza não complicada dura 1 semana, mas a tosse e a fraqueza podem persistir por mais algumas semanas.
Complicações não são raras, sendo mais frequentes nos lactentes, idosos
e pessoas debilitadas e com doenças crônicas (doença crônica das vias aéreas; doença cardíaca, hepática ou renal; diabetes; imunodeficiência). Elas se manifestam como infecções bacterianas secundárias como pneumonia, otite média, sinusite, raramente como pneumonia viral primária (frequentemente hemorrágica) ou miocardite ou encefalite. Crianças com influenza que recebem ácido acetilsalicílico (Aspirina®) podem desenvolver a síndrome de Reye: encefalopatia e degeneração gordurosa do fígado, com uma mortalidade de 40% a 50%.
2. Pandemias ocasionais (epidemias globais). Ocorrem em intervalos
irregulares e imprevisíveis: em 1918 (‘gripe espanhola’), 1957 (‘gripe asiática’), 1968 (‘gripe de Hong Kong’) e 2009 (‘gripe suína’).
A influenza pandêmica só é causada por um novo subtipo emergente do
vírus da influenza A “humano”. O mecanismo básico é uma mudança antigênica significativa, chamada de “variação antigênica do tipo shift”, Isso se origina de um processo denominado de “rearranjo”. Caso subtipos diferentes de vírus da influenza infectem o mesmo indivíduo, sua replicação pode causar o surgimento de uma progênie de vírus cujo genoma se origina de segmentos diferentes dos vírus “genitores”.
Isso pode resultar em uma estirpe de vírus com um gene de
hemaglutinina que codifica um subtipo diferente das que circulavam previamente na população humana. Assim, não haverá imunidade da população contra a nova variante do vírus e, se for transmitido eficientemente entre seres humanos e tiver uma virulência elevada, causará
uma pandemia (Fig. 3).
Pássaros aquáticos abrigam diversas estirpes diferentes de vírus da
influenza (Fig. 2). Portanto, eles são considerados como a fonte original de todas as infecções pelo vírus da influenza que acometem os porcos, cavalos, seres humanos e diversas outras espécies de animais. O rearranjo entre um subtipo de vírus aviário e um de mamífero pode ocorrer, por exemplo, nos porcos, que então transmitem a infecção para os humanos, ou pode ocorrer em um indivíduo que é infectado por um subtipo humano e outro animal ao mesmo tempo.
FIG. 2 Os vírus da influenza A são essencialmente vírus de animais.
FIG. 3 Vírus da influenza A que causou pandemias no século XX e como eles emergiram.
Leitura complementar
Kamps BS, Hoffmann C, Preiser W, editors: Influenza Report 2006, 2006, Amedeo Flying Publisher,
Available online at: http://www.influenzareport.com.
Maritz, J., Maree, L., Preiser, W. Pandemic influenza A (H1N1) 2009: The experience of the first six months. Clinical Chemistry and Laboratory Medicine. 2010; 48(1):11–21.
Zambon, M., Potter, C. W. Influenza. In Zuckerman A.J., Banatvala J.E., Schoub B.D., Griffiths P.D., Mortimer P., eds.: Principles and Practice of Clinical Virology, ed 6, London: John Wiley & Sons Ltd, 2009.
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