Virologia
Capítulo 11: Infecções virais emergentes e reemergentes
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Infecções virais emergentes e
reemergentes
Há relativamente pouco tempo, muitos especialistas acreditavam que as
doenças infecciosas eram coisa do passado. Em 1962, um famoso virologista e imunologista australiano, Sir Frank Macfarlane Burnet (1899-1985), que em 1960 recebeu o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina, disse: “…pode-se pensar em meados do século XX como sendo o final de uma das revoluções sociais mais importantes da história, a eliminação virtual das doenças infecciosas como um fator significativo na vida social”. William Steward, o Cirurgião Geral dos EUA, em 1969 falou diante do Congresso americano: “Chegou a época de fechar o livro sobre as doenças infecciosas”. Vendo o declínio acentuado das mortes devido a doenças infecciosas nos países industrializados no decorrer do século XX, pode-se entender por que essas afirmativas pareciam razoáveis na época.
No entanto, eles estavam errados. A maioria dos países em
desenvolvimento não teve as mesmas melhorias e o mundo industrializado viu o ressurgimento das doenças infecciosas, a começar pelo advento da pandemia de AIDS nos anos 1980.
Para entender por que os vírus (e outros agentes infecciosos) podem
emergir (ou reemergir), deve-se analisar a interação entre o mundo natural e a humanidade. O mundo natural inclui um número enorme de espécies diferentes sendo, portanto, uma fonte inesgotável de novos agentes infecciosos. Eles podem transbordar para a esfera humana, que inclui os animais domésticos, devido a numerosos fatores naturais e criados pelo
homem, conforme ilustrado na Figura 1 que apresenta o “continuum ecológico hospedeiro-parasita”. Desde os tempos pré-históricos, a
humanidade está sujeita à introdução de doenças infecciosas (Fig. 2). Acredita-se que o sarampo, por exemplo, se originou quando o gado foi domesticado. O contato próximo resultante entre o gado e os seres humanos permitiu que o morbilivírus específico do gado, o vírus da peste bovina, evoluísse para o morbilivírus humano, o vírus do sarampo, que é até hoje uma causa importante de mortalidade infantil. O vírus da imunodeficiência humana (HIV) emergiu de maneira semelhante: originariamente uma zoonose (infecção transmitida dos animais para os seres humanos), ele é atualmente um patógeno de transmissão exclusiva entre seres humanos. Outros vírus continuam a afetar os humanos pela transmissão como uma zoonose, ou seja, a partir dos seus reservatórios animais, mas existem enormes diferenças em sua habilidade de estabelecer uma transmissão continuada entre os indivíduos.
FIG. 1 Interação entre animais, seres humanos e o ambiente resultando na emergência de novas doenças infecciosas. (Adaptado de
Daszak et al, 2000.).
FIG. 2 Os estágios do desenvolvimento de novas doenças
infecciosas. (Adaptado de Wolfe et al, 2007).
Quadro 1 O significado de “reemergente”
O termo doenças virais (re)emergentes inclui entidades diferentes:
1. Novos vírus aparecem pela primeira vez nos seres humanos. Esses
vírus novos são, em sua maioria, de origem animal (ou seja, zoonoses). Exemplos incluem o HIV, o vírus Nipah, SARS e novos tipos de vírus da influenza.
2. Vírus conhecidos com aumento de sua relevância, de incidência ou
expansão da sua distribuição geográfica. Essa “reemergência” pode ser resultante de novas tecnologias e procedimentos médicos (p.ex., transfusão e transplante: citomegalovírus, vírus da hepatite C) ou de tentativas falhas de controle (p.ex., vírus transmitidos por vetores: dengue, febre amarela) etc.
3. Agentes recém-reconhecidos de doenças conhecidas deveriam ser
chamados de “diagnósticos emergentes” já que eles não são emergentes. Exemplos incluem o vírus da hepatite E, o herpes-vírus associado ao sarcoma de Kaposi e outros.
Quadro 2 Fatores que levam à emergência de
novas doenças infecciosas
Os seguintes fatores podem contribuir para o aparecimento de novos
agentes infecciosos (de Smolinski et al, 2003. Institute of Medicine Report).
Adaptação e mudança microbiana
Vulnerabilidade humana
Clima e tempo
Mudança nos ecossistemas
Desenvolvimento econômico e uso da terra
Demografia e comportamento humanos
Tecnologia e indústria
Viagem e comércio internacional
Esgotamento de medidas de saúde pública
Pobreza e desigualdade social
Guerra e fome
Falta de vontade política
Intenção de prejudicar
Leitura complementar
Daszak, P., Cunningham, A. A., Hyatt, A. D. Emerging infectious diseases of wildlife – threats to biodiversity and human health. Science. 2000; 287(5452):443–449.
Drosten, C., Preiser, W., Günther, S., Schmitz, H., Doerr, H. W. Severe acute respiratory syndrome: identification of the etiological agent. Trends in Molecular Medicine. 2003; 9(8):325–327.
Ludwig, B., Kraus, F. B., Allwinn, R., Doerr, H. W., Preiser, W. Viral zoonoses – a threat under control? Intervirology. 2003; 46(2):71–78.
Mahy, B. W.J. Emerging virus infections. In Zuckerman A.J., Banatvala J.E., Schoub B.D., Griffiths P.D., Mortimer P., eds.: Principles and Practice of Clinical Virology, ed 6, London: John Wiley & Sons Ltd, 2009.
Smolinski M.S., Hamburg M.A., Lederberg J., eds. Microbial threats to health: emergence, detection, and response. Washington DC: National Academies Press, 2003.
Wolfe, N. D., Dunavan, C. P., Diamond, J. Origins of major human infectious diseases. Nature. 2007; 447(7142):279–283.
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