Virologia
Capítulo 53: Os vírus e o câncer
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Os vírus e o câncer
O crescimento, diferenciação e funcionamento celular normais dependem
da regulação por sistemas complexos que controlam processos celulares importantes, como a replicação, reparo e apoptose. O crescimento celular deve ser regulado de tal maneira que órgãos e tecidos se adaptem a um determinado formato e tamanho, ao invés de sofrerem hipertrofia contínua quando confrontados com o dano causado por doenças ou traumas. Portanto, são necessários mecanismos para estimular o desenvolvimento celular, quando necessário, e suprimi-lo para evitar o crescimento descontrolado. O ciclo celular normal tem controles regulatórios intrínsecos para diferentes etapas e fases.
A oncogênese pode ser definida como a progressão das alterações
citológicas, genéticas e celulares, resultando no desenvolvimento de um
tumor maligno (Fig. 1). Transformação se refere ao processo que as células normais sofrem para se tornarem malignas, incluindo a imortalização das células, com a perda da inibição de contato entre elas, assim como na redução da dependência das células na ancoragem e fatores de crescimento externos para o seu crescimento e desenvolvimento contínuos. Diversos carcinógenos, incluindo substâncias químicas, radiação, nicotina, micotoxinas, hormônios e vírus, podem ser responsáveis pela alteração dos genes celulares normais e causar mutações que finalmente levam à transformação. Eles podem atuar separadamente ou agir em conjunto na transformação das células. As mutações podem resultar em ganho de função (a superexpressão ou estimulação de um determinado gene ou oncogene) ou a perda de função (tipicamente, genes supressores de tumores, como o p53 e pRb, com funções importantes como a indução da morte celular programada ou apoptose e reparo do DNA danificado). É importante lembrar que o câncer é considerado um processo de múltiplas etapas e que mais de uma mutação adquirida em um período de tempo resulta em doença. O sistema imunológico também desempenha um papel vital na vigilância de tumores e a imunodeficiência celular tipicamente contribui indiretamente para o processo oncogênico.
FIG. 1 Esboço do mecanismo de oncogênese.
Estima-se que 15% de todos os cânceres humanos têm uma etiologia
viral. Isso é particularmente verdadeiro nos países subdesenvolvidos onde muitas infecções virais ocorrem no início da vida. Os vírus oncogênicos (oncovírus) apresentam duas características principais que os tornam ideais para causar câncer nos seres humanos. Em primeiro lugar, os oncovírus causam infecções crônicas e permanentes nas células humanas. A maioria desses vírus integra parte do seu genoma aleatoriamente no genoma da célula do hospedeiro, podendo controlar os genes do hospedeiro e os elementos reguladores. Em segundo lugar, alguns oncovírus não são citocidas, não causando a morte das células do hospedeiro. Portanto, esses vírus são capazes de transmitir possíveis alterações genéticas obtidas para a sua progênie. Por isso, os cânceres causados por vírus são, em sua maioria, não intencionais, sendo meramente um “efeito colateral” de suas estratégias normais de replicação.