Virologia
Capítulo 52: Infecções virais e gravidez
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Infecções virais e gravidez
Introdução
Dois novos conceitos surgem durante a gravidez – um estado imune alterado da mãe e um feto que pode se infeccionar antes do parto ou no período perinatal. Ambos têm implicações significativas para as infecções virais que podem causar patologias graves nesses casos.
Infecções fetais
Os vírus que causam infecções fetais significativas incluem o citomegalovírus (CMV), o vírus da rubéola, o vírus da varicela-zoster (VZV) e o parvovírus B19. Elas são adquiridas pela transmissão vertical, pela placenta, e possivelmente por meio de infecção ascendente do trato genital, no caso do CMV.
Citomegalovírus
O CMV é uma doença comum e, entre 20% e 100% das mulheres são infectadas quando atingem a idade adulta, dependendo das condições socioeconômicas. Em mulheres com condições socioeconômicas desfavoráveis, o CMV congênito é um problema maior, pois são maiores as probabilidades de elas já serem infectadas (o CMV permanece latente com reativações periódicas). A infecção primária pelo CMV durante a gravidez apresenta o pior resultado para o feto, apesar de a reativação ou reinfecção
também apresentar seus riscos (Tabela 1).
Tabela 1
Citomegalovírus: risco de infecção para o feto
O diagnóstico pré-natal é possível – a detecção da IgM ou do vírus no
sangue do cordão umbilical ou no líquido amniótico indica infecção; a ultrassonografia pode indicar a presença de anomalias congênitas. O diagnóstico pós-natal deve ser feito, idealmente, assim que for possível após o parto para excluir infecção tardia, e a época geralmente aceita é nas primeiras 4 semanas. A presença de IgM e o CMV excretado na urina ou trato respiratório no nascimento ou logo depois indicam infecção congênita.
Os sinais e sintomas clínicos estão listados na Tabela 2.
Tabela 2
Citomegalovírus: condições clínicas
O tratamento inclui a interrupção da gravidez, nos casos de anormalidade
congênita óbvia, mas isso geralmente não é recomendado. O uso de ganciclovir durante a gravidez está sendo investigado.
Rubéola
A infecção congênita pela rubéola é uma condição devastadora, mas a incidência diminuiu consideravelmente desde a introdução da vacina contra a rubéola. Todas as mulheres devem ser vacinadas antes da puberdade e o ideal seria incluir os homens também para limitar a circulação e prevenir a exposição das mulheres a casos clínicos.
O vírus da rubéola não mata as células, mas ele limita seu crescimento e
divisão interferindo, portanto, na organogênese.
Quadro clínico
Diversos sinais e sintomas transitórios estão presentes nas primeiras semanas de vida. Eles incluem córnea turva, baixo peso ao nascer, trombocitopenia e hepatoesplenomegalia. A hepatite e pneumonite são raras.
Ocorrem defeitos permanentes, e alguns só se tornam aparentes conforme
a criança se desenvolve. Preocupações a respeito do desenvolvimento incluem o retardamento mental, retardamento psicomotor e déficits de linguagem. Os órgãos sensoriais são afetados – surdez, secundária ao dano do órgão de Corti, formação de catarata unilateral ou bilateral, retinopatia com aparência de sal e pimenta, glaucoma, miopia e microftalmia. Observou-se uma panencefalite subaguda progressiva. São vistas alterações endócrinas – geralmente diabetes melito, mas podem ocorrer distúrbios do hormônio do crescimento e do hormônio tireoidiano. São vistos defeitos cardíacos, como estenose da válvula pulmonar e do vaso pulmonar periférico, persistência do ducto arterioso e defeitos no septo ventricular.
Lesões cutâneas (Fig. 1), hérnias inguinais e criptorquidia são comuns.
FIG. 1 Rubéola congênita mostrando lesões cutâneas. (A fotografia é uma cortesia do CDC.)
Diagnóstico
Sorologia: testar a imunidade – IgG
Infecção corrente/recente – IgM
Se a IgM e a IgG forem positivas, deve-se fazer um teste de avidez para
determinar se a infecção é primária ou reinfecção – importante para o diagnóstico de rubéola na gravidez se não houver uma amostra
anterior para comparação. O tempo da sorologia também é
importante – Tabela 3.
Tabela 3
Uma mulher grávida após a exposição à rubéola
Isolamento: pode-se fazer o cultivo do vírus da rubéola em células usando-
se amostras respiratórias e de urina, assim como líquido amniótico. Nas infecções congênitas, o isolamento deve ser feito assim que for
possível após o nascimento para evitar a detecção de infecção neonatal precoce.
Molecular: a reação em cadeia da polimerase (PCR) está disponível para
determinadas indicações, sendo ideal para o líquido amniótico.
Varicela-zoster
A infecção no primeiro trimestre resulta em 1% dos recém-nascidos sendo infectados pelo vírus da varicela, causando cicatrizes na pele, hipoplasia de membros, atrofia muscular, dedos rudimentares, atrofia cortical, retardamento psicomotor, cataratas congênitas, coriorretinite, anoftalmia e anormalidades gastrintestinais. No segundo trimestre, a taxa de infecção sobe para 2%.
Parvovírus B19
As principais células-alvo do parvovírus B19 são as células precursoras dos eritrócitos, mas também infecta as células endoteliais e as células miocárdicas fetais, explicando a transmissão transplacentária e o envolvimento cardíaco fetal.