Poesia de Álvaro de Campos
Episódios
.... O tédio dos [radidiotas?] e dos [aerochatos?]
De todo o conseguimento quantitativo desta vida sem qualidade, A náusea de ser contemporâneo de mim mesmo
E a ânsia de novo novo, de certo verdadeiro,
De fonte, de começo, de origem.
A pedra no anel errado no teu dedo
Como fulgura na minha memória,
Ó pobre es nge da aristocracia burguesa conversada em viagem! Que vagos amores escondias na tua elegância verdadeira Tão falsos, pobre iludida lúcida,
Encontrada a bordo desse navio, como de todos os navios! Tomavas cocaína por superioridade ensinada,
Rias dos velhos maçadores menos maçadores que tu, Pobre criança órfã de mais que pai e mãe,
Pobre-diabo meio- apper, tão [transtransviada?]!
E eu, o moderno que o não sou, eu que consinto
Nos arredores da minha sensibilidade as tendas dos ciganos, De toda a modernidade papel-moeda;
Eu, incongruente e sem esperanças,
Passageiro como tu no navio, mas mais passageiro que tu, Porque onde tu és certa eu sou incerto,
Onde tu sabes o que és eu não sei o que sou e sei que não sabes o que és, E entre as danças tocadas ad nauseam pela banda de bordo Debruço-me sobre o mar nocturno e tenho saudades de mim. Que z eu da vida?
Que z eu do que queria fazer da vida?
Que z do que podia ter feito da vida?
Serei eu como tu, ó viajante do Anel Anafrodisíaco? Olho-te sem te distinguir da matéria amorfa das coisas E rio no fundo do meu pensamento oceânico e vazio. No quintal da minha casa provinciana e pequena — Casa como a que têm milhões não como eu no mundo — Deve haver paz a esta hora, sem mim.
Mas em mim é que nunca haverá paz,
Nem com que se faça a paz,
Nem com que se imagine a paz...
Porque então sorrio eu de ti, viajante super na?
Ó pobre água-de-Colónia da melhor qualidade,
Ó perfume moderno do melhor gosto, em frasco de feitio, Meu pobre amor que não amo caricatural e bonita! Que texto para um sermão o que não és!
Que poemas não faria um poeta verdadeiro sem pensar em ti! Mas a banda de bordo estruge e acaba...
E o ritmo do mar homérico trepa por cima do meu cérebro — Do velho mar homérico, ó selvagem deste cérebro grego, Com penas na cabeça da alma,
Com argolas no nariz da sensualidade,
E com consciência de meio-manequim de ter aspecto no mundo. Mas o facto é que a banda de bordo cessa,
E eu veri co
Que pensei em ti enquanto durou a banda de bordo. No fundo somos todos
Românticos,
Vergonhosamente românticos
E o mar continua, agitado e calmo,
Servo sempre da atenção severa da lua,
Como, aliás, o sorriso com que me interrogo
E olho para o céu sem metafísica e sem ti... Dor de corno...