Poesia de Álvaro de Campos

Fernando Pessoa · Capítulo 109 de 291

Páginas do PDF

Poesia de Álvaro de Campos

Episódios

.... O tédio dos [radidiotas?] e dos [aerochatos?]

De todo o conseguimento quantitativo desta vida sem qualidade, A náusea de ser contemporâneo de mim mesmo

E a ânsia de novo novo, de certo verdadeiro,

De fonte, de começo, de origem.

A pedra no anel errado no teu dedo

Como fulgura na minha memória,

Ó pobre es nge da aristocracia burguesa conversada em viagem! Que vagos amores escondias na tua elegância verdadeira Tão falsos, pobre iludida lúcida,

Encontrada a bordo desse navio, como de todos os navios! Tomavas cocaína por superioridade ensinada,

Rias dos velhos maçadores menos maçadores que tu, Pobre criança órfã de mais que pai e mãe,

Pobre-diabo meio- apper, tão [transtransviada?]!

E eu, o moderno que o não sou, eu que consinto

Nos arredores da minha sensibilidade as tendas dos ciganos, De toda a modernidade papel-moeda;

Eu, incongruente e sem esperanças,

Passageiro como tu no navio, mas mais passageiro que tu, Porque onde tu és certa eu sou incerto,

Onde tu sabes o que és eu não sei o que sou e sei que não sabes o que és, E entre as danças tocadas ad nauseam pela banda de bordo Debruço-me sobre o mar nocturno e tenho saudades de mim. Que z eu da vida?

Que z eu do que queria fazer da vida?

Que z do que podia ter feito da vida?

Serei eu como tu, ó viajante do Anel Anafrodisíaco? Olho-te sem te distinguir da matéria amorfa das coisas E rio no fundo do meu pensamento oceânico e vazio. No quintal da minha casa provinciana e pequena — Casa como a que têm milhões não como eu no mundo — Deve haver paz a esta hora, sem mim.

Mas em mim é que nunca haverá paz,

Nem com que se faça a paz,

Nem com que se imagine a paz...

Porque então sorrio eu de ti, viajante super na?

Ó pobre água-de-Colónia da melhor qualidade,

Ó perfume moderno do melhor gosto, em frasco de feitio, Meu pobre amor que não amo caricatural e bonita! Que texto para um sermão o que não és!

Que poemas não faria um poeta verdadeiro sem pensar em ti! Mas a banda de bordo estruge e acaba...

E o ritmo do mar homérico trepa por cima do meu cérebro — Do velho mar homérico, ó selvagem deste cérebro grego, Com penas na cabeça da alma,

Com argolas no nariz da sensualidade,

E com consciência de meio-manequim de ter aspecto no mundo. Mas o facto é que a banda de bordo cessa,

E eu veri co

Que pensei em ti enquanto durou a banda de bordo. No fundo somos todos

Românticos,

Vergonhosamente românticos

E o mar continua, agitado e calmo,

Servo sempre da atenção severa da lua,

Como, aliás, o sorriso com que me interrogo

E olho para o céu sem metafísica e sem ti... Dor de corno...