Poesia de Álvaro de Campos
Sem Impaciência
Sem curiosidade,
Sem atenção,
Vejo o crochet que com ambas as mãos combinadas Fazes.
Vejo-o do alto de um monte inexistente,
Malha após malha formando pano… Qual é a razão que te dá entretenimento
Às mãos e à alma essa coisa rala
Por onde se pode meter um fósforo apagado?
Mas também
Qual a razão que assiste a eu te criticar?
Nenhuma.
Eu também tenho um crochet.
Data de desde quando comecei a pensar… Malhas sobre malhas formando um todo sem todo… Um pano que não sei se é para um vestido ou p’ra nada — Uma alma que não sei se é p’ra sentir ou viver… Olho-te com tanta atenção
Que já nem dou por ti…
Crochet, almas, loso a…
Todas as religiões do mundo…
Tudo quanto nos entretém ao serão de sermos… Dois mar ns, uma volta, o silêncio…