Poesia de Álvaro de Campos

Fernando Pessoa · Capítulo 263 de 291

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Poesia de Álvaro de Campos

Sem Impaciência

Sem curiosidade,

Sem atenção,

Vejo o crochet que com ambas as mãos combinadas Fazes.

Vejo-o do alto de um monte inexistente,

Malha após malha formando pano… Qual é a razão que te dá entretenimento

Às mãos e à alma essa coisa rala

Por onde se pode meter um fósforo apagado?

Mas também

Qual a razão que assiste a eu te criticar?

Nenhuma.

Eu também tenho um crochet.

Data de desde quando comecei a pensar… Malhas sobre malhas formando um todo sem todo… Um pano que não sei se é para um vestido ou p’ra nada — Uma alma que não sei se é p’ra sentir ou viver… Olho-te com tanta atenção

Que já nem dou por ti…

Crochet, almas, loso a…

Todas as religiões do mundo…

Tudo quanto nos entretém ao serão de sermos… Dois mar ns, uma volta, o silêncio…