Poesia de Álvaro de Campos
Capítulo m
Para saudar-te como se deve saudar-te
Preciso tornar os meus versos corcel,
Preciso tornar os meus versos comboio,
Preciso tornar os meus versos seta,
Preciso tornar os versos pressa,
Preciso tornar os versos nas coisas do mundo
Tudo cantavas, e em ti cantava tudo — Tolerância magní ca e prostituída
A das tuas sensações de pernas abertas
Para os detalhes e os contornos do sistema do universo. m
Abram falência a nossa vitalidade!
Escrevemos versos, cantamos as coisas-falências; não as vivemos. Como poder viver todas as vidas e todas as épocas E todas as formas da forma
E todos os gestos do gesto?
O que é fazer versos senão confessar que a vida não basta O que é arte senão um esquecer de que é só isto
Adeus, Walt, adeus!
Adeus até ao inde nido do para além do Fim.
Espera-me, se aí se pode esperar,
Quando parte o último comboio?
Quando parte o último comboio?
Quando Parte? (Quando partimos)
n
Choro como a criança a quem falta a lua perto,
Como o amante abandonado pela que não tem ainda, Com o livro inexplícito do seu Reino por vir,
O que se julga em vão Motor,
Eixo do movimento dos espíritos,
Fulcro das ambições sombrias,
Auge dinâmico das tropas da ascensão,
Ou, mais claro e mais rápido, Protoplasma do mundo matemático do futuro!