Poesia de Álvaro de Campos
Ó Meu Amor! Ó Meu Damasco, Ó Minha Seda
Ó MEU AMOR! Ó MEU DAMASCO, Ó
MINHA SEDA
Ó meu amor! ó meu damasco, ó minha seda,
Ó meu guizo de prata,
Meu colar de pérolas deixado em cima da cómoda, Minha aliança de ouro em dedos já velhinhos e eis, Minha cantiga de raparigas ao poente,
Ó meu fumo de cigarro, tão inútil e tão necessário, Minha Bíblia para as crianças brincarem,
Minha amante que eu queria trazer ao colo como uma lha... Olha, tenho as mãos em febre...
Tenho a testa a escaldar, tenho os olhos muito estranhos... Todos olham para o brilho dos meus olhos e espetam-se neles... Eu tenho febre e tenho sede e lembro-me de ti por causa disso Porque se eu te tivesse como te quereria ter
(Não sei se é de um modo físico, ou de um modo psíquico) Eu não teria nem febre, nem sede, nem a testa a arder, Nem os olhos secos, muito secos, sob a fronte...
Tu não sabes o que tem sido a minha vida!...
Tu não sabes que martírio tem sido o meu...
Se tu soubesses o que é amar as coisas simples e calmas E não ter jeito para procurar senão as outras coisas! Se tu soubesses porque é que quando eu estou na minha quinta de dia Tenho saudades dela como se não estivesse lá...
Se tu soubesses o que eu sinto à noite, nos hotéis, pelas ruas, Se tu soubesses! Mas eu próprio não sei o que é que sinto... Minha lantejoula, minha casa de bonecas,
Ó
Ó meus brinquedos da minha infância atados com cordéis! Ó meu regimento que passa com a banda à frente, Minha noite no circo, nos cavalinhos, a rir dos palhaços... Ó minha (...)