Poesia de Álvaro de Campos

Fernando Pessoa · Capítulo 222 de 291

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Poesia de Álvaro de Campos

Passo na Noite da Rua Suburbana

Regresso da conferência com peritos como.

Regresso só, e poeta agora, sem perícia nem engenharia, Humano até ao som dos meus sapatos solitários no princípio da noite Onde ao longe a porta da tenda tardia se encobre com o último taipal. Ah, o som do jantar nas casas felizes!

Passo e os meus ouvidos veem para dentro das casas. O meu exílio natural enternece-se no escuro

Da rua meu lar, da rua meu ser, da rua meu sangue. Ser a criança economicamente garantida,

Com a cama fofa e o sono da infância e a criada!

Ó meu coração sem privilégio!

Minha sensibilidade da exclusão! Minha mágoa extrema de ser eu! Quem fez lenha de todo o berço da minha infância? Quem fez trapos de limpar o chão dos meus lençóis de menino? Quem expôs por cima das cascas e do cotão das casas Nos caixotes de lixo do mundo

As rendas daquela camisa que usei para me batizarem? Quem me vendeu ao Destino?

Quem me trocou por mim?

Venho de falar precisamente em circunstâncias positivas. Pus pontos concretos, como um numerador automático. Tive razão como uma balança.

Disse como sabia.

Agora, a caminho do carro elétrico do términus de onde se volta à cidade, Passo, bandido, metafísico, sob a luz dos candeeiros afastados, E na sombra entre os dois candeeiros afastados tenho vontade de não seguir. Mas apanharei o elétrico.

Soará duas vezes a campainha lá do m invisível da correia puxada Pelas mãos de dedos grossos do condutor por barbear. Apanharei o elétrico.

Ai de mim; apesar de tudo sempre apanhei o elétrico — Sempre, sempre, sempre…

Voltei sempre à cidade,

Voltei sempre à cidade, depois de especulações e desvios, Voltei sempre com vontade de jantar.

Mas nunca jantei o jantar que soa atrás das persianas Das casa felizes dos arredores por onde se volta o elétrico, Das casas conjugais da normalidade da vida!

Pago o bilhete através dos interstícios,

E o condutor passa por mim como se eu fosse a Crítica da Razão Pura… Paguei o bilhete. Cumpri o dever. Sou vulgar.

E tudo isto são coisas que nem o suicídio cura.