Poesia de Álvaro de Campos

Fernando Pessoa · Capítulo 291 de 291

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Poesia de Álvaro de Campos

Vou Atirar uma Bomba ao Destino

VOU ATIRAR UMA BOMBA AO

DESTINO

Vou atirar uma bomba ao destino.

— O SENHOR ENGENHEIRO NÃO

CONHECE AQUELA CANTIGA?

— O senhor engenheiro não conhece aquela cantiga? — Qual cantiga, mulher?...

— Aquela muito antiga. Então não conhece? Aquela que é assim —

Toda esta noite choveu…

— Sim, lembro-me, vai-te embora!

— Sim, lembro-me.

Sei lá se me lembro.

Sei que me lembro agora.

Sei que me lembro agora de toda a vida possível,

A verdadeira, a essencial…

Aquela em que

Toda a noite choveu

Nas gargulinhas da praça

Sei lá (ó meu coração) o que são gargulinhas da praça! Mas que musique de fond de todos os seres

Me foi esta cantiga?

Com que então

Toda a noite choveu

Nas gargulinhas da praça…

E eu aqui, eu aqui, eu aqui,

Tão de nitivamente aqui!

Tão irremediavelmente aqui!

Onde é que está essa praça?

Onde é que está essa noite?

Onde é que está essa chuva?

E tu, Senhora D. Maria,

E tu, tu, boquinha de cravo roxo?

Tenho passado por muitos cansaços

Cheios de vagas esperanças de um futuro qualquer. Tenho dormido muitas vezes

Ao relento de todos os sonhos…

Tenho sido inútil, fruste, incongruente — Como isso que está aí fora e é a vida.

Tenho sido estes nadas fúteis.

Senhora D. Maria,

Quando eu um dia te encontrasse

Ah, quanto te amaria!

E com quanto amor de todos os que amaram sem futuro! Mas quando é que chove toda a noite

Na gargulinhas da praça?

Quando? E onde? onde?

Boquinha de cravo roxo?

Eras tu, eras tu, aquela que sempre amei!

Mas não sabia o teu nome — sei-o agora. Não sabia como eras — sei-o agora… Senhora D. Maria

Boquinha de cravo roxo

Já te conheço melhor, mas não estou mais perto de ti. Perco-te mais porque te conheci.

«THE TIMES»

Sentou-se bêbado à mesa e escreveu um fundo

Do Times, claro, inclassi cável, lido, Supondo (coitado!) que ia ter in uência no mundo... ......

Santo Deus!... E talvez a tenha tido!

16/8/1928

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