Poesia de Álvaro de Campos

Fernando Pessoa · Capítulo 206 de 291

Páginas do PDF

Poesia de Álvaro de Campos

h

Que imperador tem o direito

De partir a boneca à lha do operário:

Que César com suas legiões tem justiça

Para partir a máquina de costura da velha?

Se eu for pela rua

E arrancar a ta suja na mão da garota

E a zer chorar, onde encontrar qualquer Cristo? Se eu tirar com uma pancada

O bolo barato da boca da criança pobre

Onde encontrarei justiça no mundo.

Onde me esconderei dos olhos do Vulto

Invisível que espreita pelas estrelas

Quando o coração vê pelos olhos o mistério olhar o universo? Minha emoção concreta, ó brinquedo de crianças Ó pequenas alegrias legítimas da gente obscura,

Ó pobre riqueza exígua dos que não são ninguém... Os móveis comprados com tanto sacrifício.

As toalhas remendadas com tanto cuidado,

As pequenas coisas de casa tão ajustadas e postas no lugar E a roda de um dos mil carros do rei vencedor

Parte tudo, e todos perderam tudo.

i

Por aqueles, minha mãe, que morreram, que caíram na batalha... Dlôn - ôn - ôn - ôn...

Por aqueles, minha mãe, que caram mutilados no combate Dlôn - ôn - ôn - ôn...

Por aqueles cuja noiva esperará sempre em vão.,.

Dlôn - ôn - ôn - ôn...

Sete vezes sete vezes murcharão as ores no jardim Dlôn - ôn - ôn - ôn...

E os seus cadáveres serão do pó universal e anónimo Dlôn - ôn - ôn - ôn...

E eles, quem sabe, minha mãe, sempre vivos, com esperança... Loucos. minha mãe, loucos, porque os corpos morrem e a dor não morre... Dlôn - ôn - ôn - ôn...

Que e feito daquele que foi a criança que tiveste ao peito? Dlôn...

Quem sabe qual dos desconhecidos mortos aí é o teu lho Dlôn...

Ainda tens na gaveta da cómoda os seus bibes de criança... Ainda há nos caixotes da dispensa os seus brinquedos velhos... Ele hoje pertence a uma podridão órfã somewhere in France Ele que foi tanto para ti, tudo, tudo, tudo...

Olha, ele não é nada no geral holocausto da história Dlôn - Dlôn...

Dlôn – Dlôn- Dlôn - Dlôn

Dlôn – Dlôn- Dlôn - Dlôn

Dlôn – Dlôn- Dlôn – Dlôn- Dlôn Quem sabe qual dos desconhecidos mortos aí é o teu lho Dlôn...

Ainda tens na gaveta da cómoda os seus bibes de criança... Ainda há nos caixotes da dispensa os seus brinquedos velhos... Ele hoje pertence a uma podridão órfã somewhere in France Ele que foi tanto para ti, tudo, tudo, tudo...

Olha, ele não é nada no geral holocausto da história Dlôn - dlôn...

Dlôn – dlôn- dlôn – dlôn…

Dlôn – dlôn- dlôn – dlôn…

Dlôn – dlôn- dlôn – dlôn - dlôn- dlôn…