Poesia de Álvaro de Campos

Fernando Pessoa · Capítulo 202 de 291

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Poesia de Álvaro de Campos

Ode Marcial

A Raul Leal

a

Clarins na noite

Clarins na noite

Clarins subitamente distintos na noite… (É de cavalgada, de cavalgada, de cavalgada o ruído longínquo?) O que é [que] estremece de diverso pela erva e nas almas? O que é que se vai alterar e lá longe se altera — Na distância, no futuro, na angústia — não se sabe onde —? Clarins na noite

Clarins… na noite,

Clari-i-i-i-ins ….

É de cavalgada, é de cavalgada, de cavalgada,

É de cavalgada, de cavalgada, de cavalgada

O ruído, ruído, ruído agora já nítido.

Vejo-as no coração e no horror que á em mim:

Valquírias, bruxas, amazonas do assombro… São uma grande sombra — conjunto de sombras pegadas, que mexe na noite Vêm em cavalgada, e a terra estremece duas vezes E o coração como a terra estremece duas vezes também. Vêm do fundo do mundo,

Vêm do abismo das coisas,

Vêm de onde partem as leis que governam tudo;

Vêm de onde a injustiça derrama-se sobre os seres, Vêm de onde se vê que é inútil amar e querer,

E só a guerra e o mal são o dentro e fora do mundo.