Poesia de Álvaro de Campos
Ode Marcial
A Raul Leal
a
Clarins na noite
Clarins na noite
Clarins subitamente distintos na noite… (É de cavalgada, de cavalgada, de cavalgada o ruído longínquo?) O que é [que] estremece de diverso pela erva e nas almas? O que é que se vai alterar e lá longe se altera — Na distância, no futuro, na angústia — não se sabe onde —? Clarins na noite
Clarins… na noite,
Clari-i-i-i-ins ….
É de cavalgada, é de cavalgada, de cavalgada,
É de cavalgada, de cavalgada, de cavalgada
O ruído, ruído, ruído agora já nítido.
Vejo-as no coração e no horror que á em mim:
Valquírias, bruxas, amazonas do assombro… São uma grande sombra — conjunto de sombras pegadas, que mexe na noite Vêm em cavalgada, e a terra estremece duas vezes E o coração como a terra estremece duas vezes também. Vêm do fundo do mundo,
Vêm do abismo das coisas,
Vêm de onde partem as leis que governam tudo;
Vêm de onde a injustiça derrama-se sobre os seres, Vêm de onde se vê que é inútil amar e querer,
E só a guerra e o mal são o dentro e fora do mundo.