Poesia de Álvaro de Campos

Fernando Pessoa · Capítulo 261 de 291

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Poesia de Álvaro de Campos

Se Nada Houvesse para Além da Morte

SE NADA HOUVESSE PARA ALÉM DA

MORTE

Se nada houvesse para além da morte,

Nada, e o que o espírito é pronto a querer

O que a imaginação em vão procura

Não fosse nada… E só um vácuo inteiro No mundo, o enorme mundo percetível,

Não fosse nem o azulado das ondas

Nem a antecâmara da Realidade

Não outra coisa que o oco dele próprio,

E vazio do ser implodindo

Éter da ininteligibilidade

Onde o erro da razão sobre montes e vagas

Sem nexo em existir sem leis utua… Quem sabe se o supremo e ermo mistério

Do universo não é ele existir

Com inteireza tal em existir

Que não tenha sentido nem razão

Nem mesmo uma existência, de tão única,

Concebível… Meu espírito, corrompe-se Ao místico furor do pensamento…

De horror sem dor…

Se o mundo inteiro, — abismo sem começo, Poço sem paredes, negro absurdo

Aberto noutro absurdo ainda mais negro — Não tem possível interpretação

Nem intemporalidade nem futuro

Da razão, ou da alma, ou do universo

Ele-próprio

 Ah o ocaso sobre os montes Com que réstia de luz nos faz de longe

O gesto lento de nos abençoar…

E nem sombra, nem mesmo de nida

Tristeza dói…

Ó sempre mesma dor do pensamento.