Poesia de Álvaro de Campos

Fernando Pessoa · Capítulo 243 de 291

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Poesia de Álvaro de Campos

Saí do Comboio

Disse adeus ao companheiro de viagem,

Tínhamos estado dezoito horas juntos.

A conversa agradável,

A fraternidade da viagem,

Tive pena de sair do comboio, de o deixar.

Amigo casual cujo nome nunca soube.

Meus olhos, senti-os, marejarem-se de lágrimas… Toda despedida é uma morte…

Sim, toda despedida é uma morte.

Nós, no comboio a que chamamos a vida

Somos todos casuais uns para os outros,

E temos todos pena quando por m desembarcamos. Tudo que é humano me comove, porque eu sou homem. Tudo me comove, porque tenho,

Não uma semelhança com ideias ou doutrinas,

Mas a vasta fraternidade com a humanidade verdadeira. A criada que saiu com pena

A chorar de saudade

Da casa onde a não tratavam muito bem… Tudo isso é no meu coração a morte e a tristeza do mundo. Tudo isso vive, porque morre, dentro do meu coração. E o meu coração é um pouco maior que o universo inteiro.