Poesia de Álvaro de Campos

Fernando Pessoa · Capítulo 12 de 291

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Poesia de Álvaro de Campos

b

Viro-me para trás, para o passado, não vivido;

Olho e o passado é uma espécie de futuro para mim. Mestre, Alberto Caeiro, que eu conheci no princípio E a quem depois abandonei como um apontamento reles. Hoje reconheço o erro, e choro dentro de mim.

Choro com a alegria de ver a lucidez com que choro E embandeiro em arco à minha morte e à minha falência sem m. Embandeiro em arco a descobri-la, só a saber quem ela é. Ergo-me en m das almofadas quase cómodas

E volto ao meu remorso sadio.

b

Ave atque vale, ó assombroso universo!

Ave atque vale, de que diversa maneira

É que eu te verei, e será de nitivamente,

Se haverá ainda mais vida, mais modos de te conhecer Mais lados de onde te olhar, — e talvez nunca te verei do Único — Seja como for, ave atque vale, ó Mundo!

Partirei para aquele teu aspeto que a Morte deve revelar-me Com o coração confrangido, a alma ansiosa, o olhar vago, E toda a consciência da aventura pondo-me ondas no sangue... Eu partirei para a Morte nada esperando encontrar Mas disposto a ver coisas prodigiosas do outro lado do Mundo. Ave atque vale, ó Universo espontâneo!

Verde esmiuçado a ervas nos prados contentes,

Verde escurecido das copas das árvores ao vento.

Escura brancura da água,

Penugem invisível dos brejos

Garras de sombra imaterial dos vendavais,

Grandes extensões os □ mares

Curso evidente dos rios

Ave atque vale! Até Deus! Até Mim! Até Vos!

Quando eu abandonar o meu ser como uma cadeira donde me levanto Deixar atrás o mundo como a um quarto donde saio, Abandonar toda esta forma, de sentidos e pensamento, de sentir as coisas. Como uma capa que me prenda,