Poesia de Álvaro de Campos
b
Viro-me para trás, para o passado, não vivido;
Olho e o passado é uma espécie de futuro para mim. Mestre, Alberto Caeiro, que eu conheci no princípio E a quem depois abandonei como um apontamento reles. Hoje reconheço o erro, e choro dentro de mim.
Choro com a alegria de ver a lucidez com que choro E embandeiro em arco à minha morte e à minha falência sem m. Embandeiro em arco a descobri-la, só a saber quem ela é. Ergo-me en m das almofadas quase cómodas
E volto ao meu remorso sadio.
b
Ave atque vale, ó assombroso universo!
Ave atque vale, de que diversa maneira
É que eu te verei, e será de nitivamente,
Se haverá ainda mais vida, mais modos de te conhecer Mais lados de onde te olhar, — e talvez nunca te verei do Único — Seja como for, ave atque vale, ó Mundo!
Partirei para aquele teu aspeto que a Morte deve revelar-me Com o coração confrangido, a alma ansiosa, o olhar vago, E toda a consciência da aventura pondo-me ondas no sangue... Eu partirei para a Morte nada esperando encontrar Mas disposto a ver coisas prodigiosas do outro lado do Mundo. Ave atque vale, ó Universo espontâneo!
Verde esmiuçado a ervas nos prados contentes,
Verde escurecido das copas das árvores ao vento.
Escura brancura da água,
Penugem invisível dos brejos
Garras de sombra imaterial dos vendavais,
Grandes extensões os □ mares
Curso evidente dos rios
Ave atque vale! Até Deus! Até Mim! Até Vos!
Quando eu abandonar o meu ser como uma cadeira donde me levanto Deixar atrás o mundo como a um quarto donde saio, Abandonar toda esta forma, de sentidos e pensamento, de sentir as coisas. Como uma capa que me prenda,