Poesia de Álvaro de Campos

Fernando Pessoa · Capítulo 223 de 291

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Poesia de Álvaro de Campos

Pecado Original

Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido? Será essa, se alguém a escrever,

A verdadeira história da humanidade.

O que há é só o mundo verdadeiro, não é nós, só o mundo; O que não há somos nós, e a verdade está aí.

Sou quem falhei ser.

Somos todos quem nos supusemos.

A nossa realidade é o que não conseguimos nunca. Que é daquela nossa verdade — o sonho à janela da infância? Que é daquela nossa certeza — o propósito a mesa de depois? Medito, a cabeça curvada contra as mãos sobrepostas Sobre o parapeito alto da janela de sacada,

Sentado de lado numa cadeira, depois de jantar.

Que é da minha realidade, que só tenho a vida?

Que é de mim, que sou só quem existo?

Quantos Césares fui!

Na alma, e com alguma verdade;

Na imaginação, e com alguma justiça;

Na inteligência, e com alguma razão — Meu Deus! meu Deus! meu Deus!

Quantos Césares fui!

Quantos Césares fui!

Quantos Césares fui!