Poesia de Álvaro de Campos

Fernando Pessoa · Capítulo 151 de 291

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Poesia de Álvaro de Campos

Meu Pobre Amigo Não Tenho Compaixão para Te Dar.

MEU POBRE AMIGO NÃO TENHO

COMPAIXÃO PARA TE DAR.

Meu pobre amigo, não tenho compaixão para te dar. A compaixão custa, sobretudo sincera, e em dias de chuva. Quero dizer: custa sentir em dias de chuva.

Sintamos a chuva e deixemos a psicologia para outra espécie de céu. Com que então, problema sexual?

Mas isso depois dos quinze anos é uma indecência. Preocupação com o sexo oposto (suponhamos) e a sua psicologia — Mas isso é estúpido, lho.

O sexo oposto existe para ser procurado e não para ser compreendido. O problema existe para estar resolvido e não para preocupar. Compreender é ser impotente.

E você devia revelar-se menos.

«La Colère de Sanson», conhece?

»La femme, enfant malade et douze fois impure!» Mas não é nada disso.

Não me mace, nem me obrigue a ter pena!

Olhe: tudo é literatura.

Vem-nos tudo de fora, como a chuva.

A maneira? Se nós somos páginas aplicadas de romances? Traduções, meu lho.

Você sabe porque está tão triste? É por causa de Platão, Que você nunca leu.

E um soneto de Petrarca, que você desconhece, sobrou-lhe errado, E assim é a vida.

Arregace as mangas da camisa civilizada

E cave terras exatas!

Mais vale isso que ter alma dos outros.

Não somos senão fantasmas de fantasmas, E a paisagem hoje ajuda muito pouco.

Tudo é geogra camente exterior.

A chuva cai por uma lei natural

E a humanidade ama porque ama falar no amor.