Poesia de Álvaro de Campos

Fernando Pessoa · Capítulo 18 de 291

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Poesia de Álvaro de Campos

Capítulo l

I

Eu cantarei,

Quando a manhã abrir as portas do meu esforço,

Eu cantarei,

Quando o alto-dia me zer fechar os olhos,

Eu cantarei,

Quando o crepúsculo limar as arestas,

Eu cantarei,

Quando a noite entrar como a Imperatriz venerada Eu cantarei a Tua Glória e o meu desígnio.

Eu cantarei

E nas estradas ladeadas por abetos,

Nas áleas dos jardins emaranhados,

Nas esquinas das ruas, nos pátios

Das casas-de-guarda,

A Tua Vitória entrará como um som de clarim

E o meu desígnio esperá-la-á sem segundo pensamento II

Perto da minha porta

Onde brincam as crianças dos outros.

Rompe um canto infantil disciplinado e cómodo,

E eu sou a quinta criança ali, se houver só quatro, E ninguém me abandonar embora eu não esteja lá. Canto talvez, dormindo transparente e calado,

m

E se todos ligam pouca importância à morte, nem conseguem Sofrendo, ler verdadeiramente a concentração de sofrer, É que a vida não crê na morte, é que a morte é nada. Embandeira em arco, a todas as cores, ao vento

Sob o grande céu luminoso e azul da terra...

Danças e cantos,

Músicas álacres, Ruídos de risos e falas, e conversas banais,

Acolham a morte que vem, porque a morte não vem, E a vida sente em todas as suas veias.

O corpo acha em tudo o que nele é alma.

Que a vida é tudo, e a morte é nada, e que o abismo É só a cegueira de ver,

Que tudo isto não pode existir e deixar de existir, Porque existir é ser, e ser não se reduz ao nada.

Ah, se todo este mundo claro, e estas ores e luz.

Se todo este mundo com terra e mar e casas e gente. Se todo este mundo natural, social, intelectual,

Estes corpos nus por baixo das vestes naturais.

Se isto é ilusão, porque é que isto está aqui?

Ó mestre Caeiro, só tu é que tinhas razão!

Se isto não é, por que é que é?

Se isto não pode ser, então porque pôde ser?

Acolhei-a, ao chegar,

A ela, à Morte, a esse erro da vista,

Com os cheiros dos campos, e as ores cortadas trazidas ao colo. Com as romarias e as tardes pelas estradas,

Com os ranchos festivos, e os lares contentes.

Com a alegria e a dor, com o prazer e a mágoa.

Com todo o vasto mar movimentado da vida.

Acolhei-a sem medo,

Como quem na estação de província, no apeadeiro campestre, Acolhe o viajante que há de chegar no comboio de Além. Acolhei-a contentes,

Crianças cantando de riso, corpos de jovens em fogo, Alegria rude e natural das tabernas,

E os braços e os beijos e os sorrisos das raparigas.

Embandeira em arco a cores de sangue e verde,

Embandeira em arco a cores de luz e de fogo.

Que a morte é a vida que veio mascarada,

E o além será isto, isto mesmo, noutro presente

Não sei de que novo modo diversamente.

Gritai ás alturas,