Poesia de Álvaro de Campos
Capítulo l
I
Eu cantarei,
Quando a manhã abrir as portas do meu esforço,
Eu cantarei,
Quando o alto-dia me zer fechar os olhos,
Eu cantarei,
Quando o crepúsculo limar as arestas,
Eu cantarei,
Quando a noite entrar como a Imperatriz venerada Eu cantarei a Tua Glória e o meu desígnio.
Eu cantarei
E nas estradas ladeadas por abetos,
Nas áleas dos jardins emaranhados,
Nas esquinas das ruas, nos pátios
Das casas-de-guarda,
A Tua Vitória entrará como um som de clarim
E o meu desígnio esperá-la-á sem segundo pensamento II
Perto da minha porta
Onde brincam as crianças dos outros.
Rompe um canto infantil disciplinado e cómodo,
E eu sou a quinta criança ali, se houver só quatro, E ninguém me abandonar embora eu não esteja lá. Canto talvez, dormindo transparente e calado,
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E se todos ligam pouca importância à morte, nem conseguem Sofrendo, ler verdadeiramente a concentração de sofrer, É que a vida não crê na morte, é que a morte é nada. Embandeira em arco, a todas as cores, ao vento
Sob o grande céu luminoso e azul da terra...
Danças e cantos,
Músicas álacres, Ruídos de risos e falas, e conversas banais,
Acolham a morte que vem, porque a morte não vem, E a vida sente em todas as suas veias.
O corpo acha em tudo o que nele é alma.
Que a vida é tudo, e a morte é nada, e que o abismo É só a cegueira de ver,
Que tudo isto não pode existir e deixar de existir, Porque existir é ser, e ser não se reduz ao nada.
Ah, se todo este mundo claro, e estas ores e luz.
Se todo este mundo com terra e mar e casas e gente. Se todo este mundo natural, social, intelectual,
Estes corpos nus por baixo das vestes naturais.
Se isto é ilusão, porque é que isto está aqui?
Ó mestre Caeiro, só tu é que tinhas razão!
Se isto não é, por que é que é?
Se isto não pode ser, então porque pôde ser?
Acolhei-a, ao chegar,
A ela, à Morte, a esse erro da vista,
Com os cheiros dos campos, e as ores cortadas trazidas ao colo. Com as romarias e as tardes pelas estradas,
Com os ranchos festivos, e os lares contentes.
Com a alegria e a dor, com o prazer e a mágoa.
Com todo o vasto mar movimentado da vida.
Acolhei-a sem medo,
Como quem na estação de província, no apeadeiro campestre, Acolhe o viajante que há de chegar no comboio de Além. Acolhei-a contentes,
Crianças cantando de riso, corpos de jovens em fogo, Alegria rude e natural das tabernas,
E os braços e os beijos e os sorrisos das raparigas.
Embandeira em arco a cores de sangue e verde,
Embandeira em arco a cores de luz e de fogo.
Que a morte é a vida que veio mascarada,
E o além será isto, isto mesmo, noutro presente
Não sei de que novo modo diversamente.
Gritai ás alturas,