Poesia de Álvaro de Campos

Fernando Pessoa · Capítulo 4 de 291

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Poesia de Álvaro de Campos

A Alma Humana É Porca Como um Ânus

A ALMA HUMANA É PORCA COMO UM

ÂNUS

A alma humana é porca como um ânus

E a Vantagem dos caralhos pesa em muitas imaginações. Meu coração desgosta-se de tudo com uma náusea do estômago. A Távola Redonda foi vendida a peso,

E a biogra a do Rei Artur, um galante escreveu-a. Mas a sucata da cavalaria ainda reina nessas almas, como um per l distante. Está frio.

Ponho sobre os ombros o capote que me lembra um xale O xale que minha tia me punha aos ombros na infância. Mas os ombros da minha infância sumiram-se muito para dentro dos meus ombros.

E o meu coração da infância sumiu-se muito para dentro do meu coração. Sim, está frio...

Está frio em tudo que sou, está frio...

Minhas próprias ideias têm frio, como gente velha... E o frio que eu tenho das minhas ideias terem frio é mais frio do que elas. Engelho o capote à minha volta...

O Universo da gente... a gente... as pessoas todas!... A multiplicidade da humanidade misturada,

Sim, aquilo a que chamam a vida, como se não houvesse outros e estrelas... Sim, a vida...

Meus ombros descaem tanto que o capote resvala... Querem comentário melhor Puxo-me para cima o capote.

Ah, parte a cara à vida!

Liberta-te com estrondo no sossego de ti!

16/8/1934