Poesia de Álvaro de Campos
A Alma Humana É Porca Como um Ânus
A ALMA HUMANA É PORCA COMO UM
ÂNUS
A alma humana é porca como um ânus
E a Vantagem dos caralhos pesa em muitas imaginações. Meu coração desgosta-se de tudo com uma náusea do estômago. A Távola Redonda foi vendida a peso,
E a biogra a do Rei Artur, um galante escreveu-a. Mas a sucata da cavalaria ainda reina nessas almas, como um per l distante. Está frio.
Ponho sobre os ombros o capote que me lembra um xale O xale que minha tia me punha aos ombros na infância. Mas os ombros da minha infância sumiram-se muito para dentro dos meus ombros.
E o meu coração da infância sumiu-se muito para dentro do meu coração. Sim, está frio...
Está frio em tudo que sou, está frio...
Minhas próprias ideias têm frio, como gente velha... E o frio que eu tenho das minhas ideias terem frio é mais frio do que elas. Engelho o capote à minha volta...
O Universo da gente... a gente... as pessoas todas!... A multiplicidade da humanidade misturada,
Sim, aquilo a que chamam a vida, como se não houvesse outros e estrelas... Sim, a vida...
Meus ombros descaem tanto que o capote resvala... Querem comentário melhor Puxo-me para cima o capote.
Ah, parte a cara à vida!
Liberta-te com estrondo no sossego de ti!
16/8/1934