Poesia de Álvaro de Campos

Fernando Pessoa · Capítulo 30 de 291

Páginas do PDF

Poesia de Álvaro de Campos

A Rapariga Inglesa Tão Loura Tão Jovem Tão Boa

A RAPARIGA INGLESA TÃO LOURA

TÃO JOVEM TÃO BOA

A rapariga inglesa, tão loura, tão jovem, tão boa

Que queria casar comigo…

Que pena eu não ter casado com ela… Teria sido feliz

Mas como é que eu sei se teria sido feliz?

Como é que eu sei qualquer coisa a respeito do que teria sido Do que teria sido, que é o que nunca foi?

Hoje arrependo-me de não ter casado com ela,

Mas antes que até a hipótese de me poder arrepender de ter casado com ela. E assim é tudo arrependimento,

E o arrependimento é pura abstração.

Dá um certo desconforto

Mas também dá um certo sonho…

Sim, aquela rapariga foi uma oportunidade da minha alma. Hoje o arrependimento é que é afastado da minha alma. Santo Deus! que complicação por não ter casado com uma inglesa que já me deve ter esquecido!...

Mas se não me esqueceu?

Se (porque há disso) me lembra ainda e é constante Escuso de me achar feio, porque os feios também são amados E às vezes por mulheres!)

Se não me esqueceu, ainda me lembra.

Isto realmente, é já outra espécie de arrependimento. E fazer sofrer alguém não tem esquecimento.

Mas, a nal, isto são conjeturas da vaidade.

Bem se há de ela lembrar de mim, com o quarto lho nos braços, Debruçada sobre o Daily Mirror a ver a Princesa Maria. Pelo menos é melhor pensar que é assim.

É

É um quadro de casa suburbana inglesa,

É uma boa paisagem íntima de cabelos louros,

E os remorsos são sombras…

Em todo o caso, se assim é, ca um bocado de ciúme. O quarto lho do outro, o Daily Mirror na outra casa. O que podia ter sido…

Sim, sempre o abstrato, o impossível, o irreal mas perverso — O que podia ter sido.

Comem marmelada ao pequeno-almoço em Inglaterra… Vingo-me em toda a burguesia inglesa de ser um parvo português. Ah, mas ainda vejo

O teu olhar realmente tão sincero como azul

A olhar como uma outra criança para mim… E não é com piadas de sal do verso que te apago da imagem Que tens no meu coração;

Não te disfarço, meu único amor, e não quero nada da vida.