Poesia de Álvaro de Campos

Fernando Pessoa · Capítulo 32 de 291

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Poesia de Álvaro de Campos

Acaso

No acaso da rua o acaso da rapariga loira.

Mas não, não é aquela.

A outra era noutra rua, noutra cidade, e eu era outro. Perco-me subitamente da visão imediata,

Estou outra vez na outra cidade, na outra rua,

E a outra rapariga passa.

Que grande vantagem o recordar intransigentemente! Agora tenho pena de nunca mais ter visto a outra rapariga, E tenho pena de a nal nem sequer ter olhado para esta. Que grande vantagem trazer a alma virada do avesso! Ao menos escrevem-se versos.

Escrevem-se versos, passa-se por doido, e depois por génio, se calhar, Se calhar, ou até sem calhar,

Maravilha das celebridades!

Ia eu dizendo que ao menos escrevem-se versos...

Mas isto era a respeito de uma rapariga,

De uma rapariga loira,

Mas qual delas?

Havia uma que vi há muito tempo numa outra cidade, Numa outra espécie de rua;

E houve esta que vi há muito tempo numa outra cidade Numa outra espécie de rua;

Porque todas as recordações são a mesma recordação, Tudo que foi é a mesma morte,

Ontem, hoje, quem sabe se até amanhã?

Um transeunte olha para mim com uma estranheza ocasional. Estaria eu a fazer versos em gestos e caretas?

Pode ser... A rapariga loira?

É a mesma a nal...

Tudo é o mesmo a nal ...

Só eu, de qualquer modo, não sou o mesmo, e isto é o mesmo também a nal.