Poesia de Álvaro de Campos
Não Tenho Sinceridade Nenhuma que Te Dar.
Ao quintal
Ao lado…
NÃO TENHO SINCERIDADE
NENHUMA QUE TE DAR.
Não tenho sinceridade nenhuma que te dar.
Se te falo, adapto instintivamente frases
A um sentido que me esqueço de ter.
NÃO TER DEVERES NEM HORAS
CERTAS NEM REALIDADES...
Não ter deveres, nem horas certas, nem realidades... Ser uma ave humana
Que passe haleiónica sobre a intransigência do mundo — Ganhando o pão da sua noite com o suor da fronte dos outros — Faz-tudo triste
No coliseu com lágrimas,
E compère antigo, um pouco mais cheio que Vénus de Milo, Na insubsistência dos acasos.
E um pouco de sol, ao menos, para os sonhos onde não vivo.