Poesia de Álvaro de Campos

Fernando Pessoa · Capítulo 13 de 291

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Poesia de Álvaro de Campos

Capítulo c

Quando de vez minha alma chegar à superfície da minha pele E dispersar o meu ser pelo universo exterior.

Seja com alegria que eu reconheça que a Morte

Vem como um sol distante na antemanhã do meu novo ser. Numa viagem oblíqua do meu leito de moribundo Viagem em diagonal às dimensões dos objetos

Para o canto do teto mais longe, a cama erguer-se-á do chão Erguer-se-á como um balão ridículo e seguirá

Como um comboio sobre os rails diretamente

Não tenho medo, ó Morte, ao que não deixa entrever O teu postigo proibido na rua porta sobre o mundo. Estendo os braços para ti como uma criança

Do colo da ama para o aparecimento da mãe… Por ti deixo contente os meus brinquedos de adulto. Por ti não tenho parentes, não tenho nada que me prenda A este prodigioso, constante e doentio universo.

Todo o De nitivo deve estar em Ti ou em parte nenhuma. c

E eu o complexo, eu o numeroso,

Eu a saturnália de todas as possibilidades,

Eu o quebrar do dique de todas as personalizações, Eu o excessivo, eu o sucessivo, eu o □ Eu o prolixo até de continências e paragens,

Eu que tenho vivido através do meu sangue e dos meus nervos Todas as sensibilidades correspondentes a todas as metafísicas Que tenho desembarcado em todos os portos da alma, Passado em aeroplano sobre todas as terras do espírito, Eu o explorador de todos OS sertões do raciocínio, □

0 Criador de Weltanschauungen.

Pródigo semeador pela minha própria indiferença De correntes de moderno todas diferentes

Todas no momento em que são concebidas verdades Todas pessoas diferentes, todas eu-próprio apenas — Eu morrerei assim? Não: o universo é grande

E tem possibilidade de coisas in nitas acontecerem Não: tudo é melhor e maior que nós o pensamos

E a morte revelará coisas absolutamente inéditas... Deus será mais contente.

Salve, ó novas coisas, a acontecer-me quando eu morrer, Nova mobilidade do universo a despontar no meu horizonte Quando de nitivamente

Como um vapor largando do cais para longa viagem. Com a banda de bordo a tocar o hino nacional da Alma Eu largado para X, perturbado pela partida

Mas cheio da vaga esperança ignorante dos emigrantes, Cheio de fé no Novo, de Crença limpa no Ultramar. Eia — por ai fora, por esses mares internado, À busca do meu futuro — nas terras, lagos e rios Que ligam a redondeza da terra — todo o Universo — Que oscila à vista, Eia por aí fora…

Ave atque vale. ó prodigioso Universo...

Haverá primeiro

Uma grande aceleração das sensações, um □ Com grandes dérapages nas estradas da minha consciência □

(E até á aterrissage nal do meu aero □ Uma grande conglobação das sensações incontíguas Veloz, silvo voraz do espaço entre a alma e Deus

Do meu […]

Os meus estados de alma, de sucessivos, tornar-se-ão simultâneos. Toda a minha individualidade se amarrotará num só ponto, E quando, prestes a partir,

Tudo quanto vivo, e o que viverei para alem do mundo, Será fundido num só conjunto homogéneo e incandescente E com um tal aumentar do ruído dos motores

Que se torna um ruído já não férreo, mas apenas abstrato. Irei num silvo de sonho de velocidade pelo Incógnito fora Deixando prados, paisagens, vilas dos dois lados E cada vez mais no con m, nos longes do cognoscível. Sulco de movimento no estaleiro das coisas.