Poesia de Álvaro de Campos
Há Tantos Deuses!
São como os livros — não se pode ler tudo, nunca se sabe nada. Feliz quem conhece só um deus, e o guarda em segredo. Tenho todos os dias crenças diferentes — Às vezes no mesmo dia tenho crenças diferentes — E gostava de ser a criança que me atravessa agora
A visão da janela abaixo —
Comendo um bolo barato (ela é pobre) sem causa aparente nem nal, Animal inutilmente erguido acima dos outros vertebrados E cantando, entre os dentes, uma cantiga obscena de revista… Sim, há muitos deuses…
Mas dava eu tudo ao deus que me levasse aquela criança de aqui pra fora.