Poesia de Álvaro de Campos

Fernando Pessoa · Capítulo 27 de 291

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Poesia de Álvaro de Campos

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Eu só estaria contente se o meu corpo fosse a minha alma… Assim, todos os ventos, todos os sóis e todas as chuvas Seriam sentidos por mim do único modo que eu quereria… Não podendo acontecer-me isto, desespero, raivo, Tenho vontade de poder arrancar à dentada o meu fato E depois ter pesadas garras de leão para me despedaçar Até o sangue correr, correr, correr, correr… Sofro porque tudo isto é absurdo

Como se me tivesse medo alguém,

Com o meu sentimento agressivo para o destino, para Deus, Que nasce de encararmos o Inefável

E medirmos bem, de repente, a nossa fraqueza e pequenez. g

Passo adiante, nada me toca; sou estrangeiro.

As mulheres que chegam ás portas depressa

Viram apenas que eu passei.

Estou sempre do lado de lá da esquina dos que me querem ver, Inatingível a metais e encrustamentos.

Ó tarde, que reminiscências!

Ontem ainda, criança que se debruçava no poço,

Eu via com alegria meu rosto na água longínqua.

Hoje, homem, vejo meu rosto na água funda do mundo. Mas se rio é só porque fui outrora

A criança que viu com alegria seu rosto no fundo do poço. Sinto-os a todos substância da minha pele.

Toco no meu braço e eles estão ali.

Os mortos — eles nunca me deixam! Nem as pessoas mortas, nem os lugares passados, nem os dias. E às vezes entre o ruído das máquinas da fábrica

Toca-me levemente uma saudade no braço

E eu viro-me… e eis no quintal da minha casa antiga A criança que fui ignorando ao sol quem eu haveria de ser.

Ah, sê materna!

Ah, sê melí ua e taciturna

Ó noite onde me esqueço de mim

Lembrando…

[posterior a 1917]

□ espaço deixado em branco pelo autor [.] palavra ilegível