Poesia de Álvaro de Campos

Fernando Pessoa · Capítulo 61 de 291

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Poesia de Álvaro de Campos

Às Vezes Medito

Às vezes medito, e medito mais fundo, e ainda mais fundo E todo o mistério das coisas aparece-me como um óleo à superfície, E todo o universo é um mar de caras de olhos fechados para mim. Cada coisa — um candeeiro de esquina, uma pedra, uma árvore, E um olhar que me ta de um abismo incompreensível, E des lam no meu coração os deuses todos, e as ideias dos deuses. Ah, haver coisas!

Ah, haver seres!

Ah, haver maneira de haver seres

De haver haver,

De haver como haver haver,

De haver...

Ah, o existir o fenómeno abstracto — existir, Haver consciência e realidade,

O que quer que isto seja...

Como posso eu exprimir o horror que tudo isto me causa? Como posso eu dizer como é isto para se sentir?

Qual é alma de haver ser?

Ah, o pavoroso mistério de existir a mais pequena coisa Porque é o pavoroso mistério de haver qualquer coisa Porque é o pavoroso mistério de haver...

29/4/1928