Poesia de Álvaro de Campos

Fernando Pessoa · Capítulo 248 de 291

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Poesia de Álvaro de Campos

Capítulo c

Vãos os sons débeis dos ais no escuro

E vão mais cerca da vida, rodeando-me,

Prémio melhor do meu saudar-te

Os ruídos, cicios, assobios dos comboios

Os ruídos modernos e das fábricas,

Som regular,

Rodas,

Volantes,

Hélices

Pum…

c

Hé-lá que eu vou chamar

Ao privilégio ruidoso e ensurdecedor de saudar-te Todo o formilhamento humano do Universo,

Todos os modos de todas as emoções,

Todos os feitios de todos os pensamentos,

Todas as rodas, todas os volantes, todos os êmbolos da alma. Heia que eu grito

E num cortejo de Mim até ti estardalhaçam

Com uma algarvia metafísica e real,

Com um chinfrim de coisas passado por dentro sem nexo, […]

Ave, salve, viva, ó grande bastardo de Apolo,

Amante impotente e fogoso das nove musas e das graças, Funicular do Olimpo até nós e de nós ao Olimpo, Fúria do moderno concretado em mim,

Espasmo translúcido de ser,

Flor de agirem os outros,

Festa porque há a vida,

Loucura porque não há vida bastante em um p’ra ser todos Porque ser é ser bastardo e só Deus nos servia.