Poesia de Álvaro de Campos
Depois de Não Ter Dormido
Depois de já não ter sono
Interminável madrugada em que se pensa sempre sem se pensar, Vi o dia vir
Como a pior das maldições —
A condenação ao mesmo.
Contudo, que riqueza de azul verde e amarelo dourado de vermelho No céu eternamente longínquo —
Nesse oriente que estragaram
Dizendo que vêm de lá as civilizações;
Nesse oriente que nos roubaram
Com o Conto do Vigário dos mitos solares,
Maravilhoso oriente sem civilizações nem mitos,
Simplesmente céu e luz,
Material sem materialidade…
Todo luz, mesmo assim
A sombra, que é a luz da noite dada ao dia,
Enche por vezes, irresistivelmente natural,
O grande silêncio do trigo sem vento,
O verdor esbatido dos campos afastados,
A vida e o sentimento da vida.
A manhã inunda toda a cidade.
Meus olhos pesados do sono que não tivestes,
Que amanhã inundará o que está por trás de vós,
Que é vós,
Que sou eu?