Poesia de Álvaro de Campos
Paragem. Zona
Tragam-me esquecimento em travessas!
Quero comer o abandono da vida!
Quero perder o hábito de gritar para dentro.
Arre, já basta! Não sei o quê, mas já basta… Então viver amanhã, hein?... E o que se faz de hoje? Viver amanhã por ter adiado hoje?
Comprei por acaso um bilhete para esse espetáculo? Que gargalhadas daria quem pudesse rir!
E agora aparece o elétrico — o de que eu estou à espera — Antes fosse outro… Ter de subir já!
Ninguém me obriga, mas deixá-lo passar porquê? Só deixando passar todos, e a mim mesmo, e à vida… Que náusea no estômago real que é a alma consciente! Que sono bom o ser outra pessoa qualquer… Já compreendo porque é que as crianças querem ser guarda-freios… Não, não compreendo nada…
Tarde de azul e ouro, alegria das gentes, olhos claros da vida…