Poesia de Álvaro de Campos

Fernando Pessoa · Capítulo 219 de 291

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Poesia de Álvaro de Campos

Paragem. Zona

Tragam-me esquecimento em travessas!

Quero comer o abandono da vida!

Quero perder o hábito de gritar para dentro.

Arre, já basta! Não sei o quê, mas já basta… Então viver amanhã, hein?... E o que se faz de hoje? Viver amanhã por ter adiado hoje?

Comprei por acaso um bilhete para esse espetáculo? Que gargalhadas daria quem pudesse rir!

E agora aparece o elétrico — o de que eu estou à espera — Antes fosse outro… Ter de subir já!

Ninguém me obriga, mas deixá-lo passar porquê? Só deixando passar todos, e a mim mesmo, e à vida… Que náusea no estômago real que é a alma consciente! Que sono bom o ser outra pessoa qualquer… Já compreendo porque é que as crianças querem ser guarda-freios… Não, não compreendo nada…

Tarde de azul e ouro, alegria das gentes, olhos claros da vida…