Poesia de Álvaro de Campos

Fernando Pessoa · Capítulo 169 de 291

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Poesia de Álvaro de Campos

Nas Minhas Veias por Onde Corre Numa Lava de Asco

NAS MINHAS VEIAS POR ONDE CORRE

NUMA LAVA DE ASCO

Nas minhas veias, por onde corre numa lava de asco, A fúria do horror da vida!

NAS PRAÇAS VINDOURAS — TALVEZ

AS MESMAS QUE AS NOSSAS —

Nas praças vindouras — talvez as mesmas que as nossas — Que elixires serão apregoados?

Com rótulos diferentes, os mesmos do Egito dos Faraós; Com outros processos de os fazer comprar, os que já são nossos. E as metafísicas perdidas nos cantos dos cafés de toda a parte, As loso as solitárias de tanta trapeira de falhado, As ideias casuais de tanto casual, as intuições de tanto ninguém — Um dia talvez, em uido abstrato, e substância implausível, Formem um Deus, e ocupem o mundo.

Mas a mim, hoje, a mim

Não há sossego de pensar nas propriedades das coisas, Nos destinos que não desvendo,

Na minha própria metafísica, que tenho porque penso e sinto. Não há sossego,

E os grandes montes ao sol têm-no tão nitidamente! Têm-no? Os montes ao sol não têm coisa nenhuma do espírito. Não seriam montes, não estariam ao sol, se o tivessem. O cansaço de pensar, indo, até ao fundo de existir, Faz-me velho desde antes de ontem com um frio até no corpo. O que é feito dos propósitos perdidos, e dos sonhos impossíveis? E porque é que há propósitos mortos e sonhos sem razão? Nos dias de chuva lenta, contínua, monótona, uma, Custa-me levantar-me da cadeira onde não dei por me ter sentado, E o universo é absolutamente oco em torno de mim. O tédio que chega a constituir nossos ossos encharcou-me o ser, E a memória de qualquer coisa de que me não lembro esfria-me a alma. Sem dúvida que as ilhas dos mares do sul têm possibilidades para o sonho, E que os areais dos desertos todos compensam um pouco a imaginação;

Mas no meu coração sem mares nem desertos nem ilhas sinto eu, Na minha alma vazia estou,

E narro-me prolixamente sem sentido, como se um parvo estivesse com febre. Fúria fria do destino,

Interseção de tudo,

Confusão das coisas com as suas causas e os seus efeitos, Consequência de ter corpo e alma,

E o som da chuva chega até eu ser, e é escuro.