Poesia de Álvaro de Campos

Fernando Pessoa · Capítulo 90 de 291

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Poesia de Álvaro de Campos

Dá-Nos a Tua Paz

Deus Cristão falso, mas consolador, porque todos Nascem para a emoção rezada a ti;

Deus anticientí co mas que a nossa mãe ensina;

Deus absurdo da verdade absurda, mas que tem a verdade das lágrimas Nas horas de fraqueza em que sentimos que passamos Como o fumo e a nuvem, mas a emoção não o quer, Como o rasto na terra, mas a alma é sensível...

Dá-nos a Tua paz, ainda que não existisses nunca, A Tua paz no mundo que julgas Teu,

A Tua paz impossível tão possível à Terra,

À grande mãe pagã, cristã em nós a esta hora

E que deve ser humana em tudo quanto é humano em nós. Dá-nos a paz como uma brisa saindo

Ou a chuva para a qual há preces nas províncias,

E chove por leis naturais tranquilizadoramente.

Dá-nos a paz, porque por ela siga, e regresse

O nosso espírito cansado ao quarto de arrumações e coser Onde ao canto está o berço inútil, mas não a mãe que embala, Onde na cómoda velha está a roupa da infância, despida Com o poder iludir a vida com o sonho...

Dá-nos a tua paz.

O mundo é incerto e confuso,

O pensamento não chega a parte nenhuma da Terra, O braço não alcança mais do que a mão pode conter, O olhar não atravessa os muros da sombra,

O coração não sabe desejar o que deseja A vida erra constantemente o caminho para a Vida. Dá-nos, Senhor, a paz, Cristo ou Buda que sejas,

Dá-nos a paz e admite

Nos vales esquecidos dos pastores ignotos

Nos píncaros de gelo dos eremitas perdidos,

Nas ruas transversais dos bairros afastados das cidades, A paz que é dos que não conhecem e esquecem sem querer. Materna paz que adormeça a terra,

Dormente à lareira sem loso as,

Memória dos contos de fadas sem a vida lá fora,

A canção do berço volvida através da memória sem futuro, O calor, a ama, o menino,

O menino que se vai deitar

E o sentido inútil da vida,

O coevo antigo das coisas,

A dor sem fundo da terra, dos homens, dos destinos Do mundo…