Poesia de Álvaro de Campos
São Poucos os Momentos de Prazer na Vida...
SÃO POUCOS OS MOMENTOS DE
PRAZER NA VIDA...
São poucos os momentos de prazer na vida… É gozá-la… Sim, já o ouvi dizer muitas vezes Eu mesmo já o disse. (Repetir é viver.)
É gozá-la, não é verdade?
Gozemo-la, loura, falsa, gozemo-la, casuais e incógnitos, Tu, com teus gestos de distinção cinematográ ca
Com teus olhares para o lado a nada,
Cumprindo a tua função de animal emaranhado; Eu no plano inclinado da consciência para a indiferença, Amemo-nos aqui. Tempo é só um dia.
Tínhamos o [?romantismo?] dele!
Por trás de mim vigio, involuntariamente.
Sou qualquer nas palavras que te digo, e são suaves — e as que esperas. Do lado de cá dos meus Alpes, e que Alpes! somos do corpo. Nada quebra a passagem prometida de uma ligação futura, E vai tudo elegantemente, como em Paris, Londres, Berlim. «Percebe-se», dizes, «que o senhor viveu muito no estrangeiro.» E eu que sinto vaidade em ouvi-lo!
Só tenho medo que me vás falar da tua vida… Cabaret de Lisboa? Visto que o é, seja.
Lembro-me subitamente, visualmente, do anúncio no jornal «Rendez-vous da sociedade elegante»,
Isto.
Mas nada destas re exões temerárias e futuras
Interrompe aquela conversa involuntária em que te sou qualquer. Falo médias e imitações
E cada vez, vejo e sinto, gostas mais de mim a valer que [] hoje; É nesta altura que, debruçando-me de repente sobre a mesa Te segredo em segredo o que exatamente convinha. Ris, toda olhar e em parte boca, efusiva e próxima, E eu gosto verdadeiramente de ti.
Soa em nós o gesto sexual de nos irmos embora.
Rodo a cabeça para o pagamento…
Alegre, álacre, sentindo-te, falas…
Sorrio.
Por trás do sorriso, não sou eu.