Poesia de Álvaro de Campos

Fernando Pessoa · Capítulo 253 de 291

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Poesia de Álvaro de Campos

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Quando é que parte o último comboio?)

Sei que cantar-te assim não é cantar-te — mas que importa? Sei que é cantar tudo, mas cantar tudo é cantar-te, Sei que é cantar-me a mim — mas cantar-me a mim é cantar-te a ti Sei que dizer que não posso cantar é cantar-te, Walt, ainda… h

Heia? Heia o quê e porquê?

O que tiro eu de heia ou de qualquer coisa,

Que valha pensar em heia!?

Decadentes, meu velho, decadentes é que nós somos… No fundo de cada um de nós há uma Bizâncio a arder, E nem sinto as chamas e nem sinto Bizâncio

Mas o Império nda nas nossas veias agudas

E a Poesia foi a da nossa incompetência para agir… Tu, cantador de pro ssões enérgicas, Tu o Poeta do Extremo, do Forte, Tu, músculo da inspiração, com musas masculinas por destaque, Tu, a nal, inocente em viva histeria,

A nal apenas «acariciador da vida»,

Mole ocioso, paneleiro pelo menos na intenção,

— … — Bem isso era contigo mas onde é que aí está a vida? Eu, engenheiro como pro ssão, farto de tudo e de todos, Eu, exageradamente supér uo, guerreando as coisas Eu, inútil, gasto, improfícuo, pretensioso e amoral, Boia das minhas sensações desgarradas pelo temporal, Âncora do meu navio já quebrada pró fundo

Eu feito cantor da Vida e da Força — acreditas? Eu, como tu, enérgico, salutar, nos versos — E a nal sincero como tu, ardendo com ter toda a Europa no cérebro, No cérebro explosivo e sem diques,

Na inteligência mestra e dinâmica,

Na sensualidade carimbo, projetor, marca, cheque Pra que diabo vivemos, e fazemos versos?

Raios partam a mandriice que nos faz poetas,

A degenerescência que nos engana artistas, O tédio fundamental que nos pretende enérgicos e modernos, Quando o que queremos é distrair-nos, dar-nos ideia da vida Porque nada fazemos e nada somos, a vida corre-nos lenta nas veias. Vejamos ao menos, Walt, as coisas com plena verdade… Bebamos isto como um remédio amargo